Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Escolha o seu presidente

Por Flávio Aguiar - Nossa sociedade de consumo é tão variada que permite escolher todos os dias o presidente que governa o país. Ou será o contrário: as agendas dos presidentes estão tão parecidas que se pensa que dois deles, completamente diferentes, sejam a mesma pessoa? (Leia Mais)

Quarta, 05 de Maio de 2004 às 07:46, por: CdB

Nossa sociedade de consumo é tão variada que permite a você escolher todos os dias o presidente que governa o seu país. Ou será o contrário: as agendas dos presidentes estão ficando tão parecidas que até se pensa que dois deles, completamente diferentes, sejam a mesma pessoa?

Estamos num país latino-americano. Mas imaginemos estar num daqueles romances de James Joyce, ou de Virginia Woolf, em que se escrutina uma vida inteira em um único dia. Joyce (em Ulysses, de que há a excelente tradução de Antonio Houaiss) escolheu o 16 de junho, em Dublin, antes da Guerra. Virginia (no Mrs. Dalloway, entre nós em magistral tradução de Mário Quintana) também escolheu um dia de junho, depois da Guerra (a Primeira, em ambos os casos). Por essas vicissitudes da vida, escolhi um 30 de Abril, véspera de 1o. de Maio, em meio às primeiras escaramuças de nossa guerrinha eleitoral de 2004, pré-2006.

Tomei de um jornal, onde o presidente do país latino-americano aparece não raro descrito como tendo preferência por teores alcoólicos fortes, dado a ditos chistosos para quem os ouve, não para quem os fala, pois o expõem ao ridículo. Neste 30 de abril (os fatos aparecem na edição do dia seguinte), o presidente é apontado como dirigindo um país de "vira-latas", de gente sem auto-estima. Seu governo não tem prioridades e fala errado em qualquer língua que exercite. É, em suma, um presidente trapalhão de um governo atrapalhado e completamente sem rumo.

Que fez o presidente no dia 30 de abril? Começou seu dia entregando a um município ambulâncias velhas pintadas como se fossem novas. Logo em seguida, inaugurou uma unidade de saúde que estava incompleta, faltando equipamentos básicos, como ultra-som e mesa ginecológica.

Ficamos sabendo na página seguinte que esse presidente prosseguiu com sua retórica circense, pois para a reportagem ele repetiu naquela cidade discurso que fizera quatro dias atrás, em outra, para outra platéia. A repetição foi tanta que até a piada foi a mesma, segundo o texto.

Continuando seu dia, o presidente deixou de comparecer a eventos inaugurativos em outra cidade, onde a prefeitura local é descrita como tendo patrocinado uma "operação belezura" para recebê-lo. O motivo da desistência é dado como sendo "a falta de público". O jornal afirma que "apurou" esta informação, junto com outra: a de que o presidente "avaliou" que pegaria mal a sucessão de inaugurações, pois numa delas haveria apenas uma pedra fundamental. A reportagem conclui com afirmações de duas moradoras revoltadas com a ausência do presidente, ameaçando jogar-lhe ovos e tomates na cara (uma) e dizendo que ele não tinha coragem de vir até ali (a outra). Também merecem destaque um sindicalista que usava uma camiseta com protestos contra o não cumprimento da promessa de se criarem 10 milhões de empregos até agora, e uma senhora que, em outro local, "segurando um copo de cerveja" (sic), chamou Lula de traidor.

De quebra, ficamos sabendo que a exibição da presença desse presidente em programa de TV não aumentou o índice de audiência do mesmo, que se manteve à mesma distância do mais popular, que desfruta de 7 vezes mais pontos na medição (48 x 7).

Vamos a um outro presidente, que deve ser de algum outro país latino-americano, e escrutinar o seu dia 30 de abril. As atividades foram muito semelhantes às do primeiro, mas as diferenças são tão evidentes que fica claro não serem as mesmas pessoas nem o mesmo espaço. É o presidente de um outro jornal. Neste periódico, esse presidente é freqüentemente apresentado como um político que teve arroubos esquerdistas no passado, dos quais ainda por vezes guarda lembranças indevidas, sobretudo porque é assessorado (perseguido) por um grupo de saudosistas. Mas felizmente, esse presidente vem tomando doses diárias de realismo econômico, graças à firme presença de uma equipe (que parece acossada, como aqueles poucos texanos no Álamo, por uma malta de gritalhões furibundos) diminuta, mas reso

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