Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Escolha de Ratzinger choca católicos liberais dos EUA

Terça, 19 de Abril de 2005 às 16:37, por: CdB

Católicos liberais dos Estados Unidos se mostraram chocados na terça-feira com a escolha do conservador Joseph Ratzinger para ser o novo papa. Eles duvidam de que o novo pontífice possa curar uma instituição marcada pela desilusão e manchada por escândalos de abuso sexual.

A eleição de Ratzinger irritou os que defendem o fim do celibato clerical, um maior papel para as mulheres na Igreja e o abrandamento de sua política sobre a homossexualidade, controle de natalidade, eutanásia e aborto.

Desde que assumiu a Congregação da Doutrina da Fé, tornando-se o principal ideólogo da Igreja Católica, Ratzinger denunciou a homossexualidade e chegou a qualificar outras igrejas cristãs como deficientes.

"Católicos gays e lésbicas serão muito feridos por esta eleição porque o cardeal Ratzinger foi pára-raios para grande parte da ira que eles sentiram sob o papa anterior", disse Francis DeBernardo, diretor-executivo da entidade Novas Formas de Ministério, que reúne católicos homossexuais.

No pontificado de João Paulo 2o., o comparecimento dos católicos norte-americanos à missa semanal decaiu já que muitos se afastaram de uma doutrina considerada cada vez mais conservadora.

Essa alienação se agravou com o escândalo dos padres pedófilos, em 2002, na arquidiocese de Boston. Documentos judiciais mostraram que os bispos transferiram padres sabidamente pedófilos de paróquia em paróquia, sem se preocupar em puni-los.

As vítimas de abusos sexuais cometidos pelo clero reagiram com ceticismo à notícia da eleição de Bento 16.

"Ratzinger é uma figura polarizadora para muitos, que parece preferir o combate ao compromisso e à compaixão", disse nota assinada por Mary Grant, da Rede de Sobreviventes dos Abusados por Padres. "É crucial que o novo papa siga as palavras e opiniões de João Paulo 2o., que disse que 'não há lugar no clero para quem faz mal aos jovens'."

A entidade liberal Católicas pelo Direito de Escolher apresentou um plano de ação para que o novo pontífice cumpra em seus primeiros cem dias, com o objetivo de curar as feridas dentro da Igreja.

O texto pede ao novo papa que nomeie uma comissão para rever as políticas da Igreja a respeito de preservativos, estabelecer uma academia pontifícia sobre os direitos da mulher na Igreja e aceitar a volta dos fiéis marginalizados nos últimos 26 anos -- inclusive homossexuais.

Mas pessoas com o pensamento de Ratzinger esperam um continuísmo e duvidam de que ele mude suas opiniões para se adaptar às forças liberais na Igreja dos EUA.

"Este é o sujeito que esteve encarregado de asfixiar a dissidência na Igreja", disse a advogada Carmen Durso, que representou dezenas de pessoas que afirmavam ter sofrido abusos sexuais de padres da arquidiocese de Boston.

"Isso me fala que o Vaticano não está preparado para entrar no século 21, o que desesperadamente precisa fazer", disse Durso, católica não-praticante.

A freira Christine Schenk, de Cleveland, que defende a abertura do clero a homens casados, se disse frustrada e intrigada com a eleição de Ratzinger, mas viu sinais de esperança.

Schenk explicou que Ratzinger nunca descartou a idéia de padres casados e que pode agir nesse sentido devido à escassez de interessados no clero.

A irmã Donna Quinn, da Coalizão Nacional de Freiras Americanas, disse que seu grupo espera que o novo papa trabalhe pela participação e parceria das mulheres na Igreja.

Em um documento de 2004, Ratzinger criticou o "feminismo radical", que prejudicaria as famílias e deixaria de lado as diferenças naturais entre homens e mulheres.

Questionada sobre motivos para esperar que Ratzinger abra mais espaço para as mulheres na Igreja, Quinn disse: "Sempre esperamos milagres."

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