A bolsa de Tóquio fechou nesta quarta-feira 20 minutos mais cedo, pela primeira vez em seus 57 anos de história - por não conseguir lidar com a enxurrada de ordens de venda nos papéis do setor de tecnologia, principalmente devido à investigação criminal sobre a empresa de internet Livedoor. Durante o dia, a Bolsa de Tóquio havia dado avisos de que iria interromper as negociações se o sistema chegasse ao limite de sua capacidade, 4 milhões de transações. Uma hora antes do fim dos negócios, a Bolsa informou que o número de transações estava em 3,5 milhões e que os negócios seriam encerrados 20 minutos antes --às 14h40 (3h40 em Brasília). O horário de fechamento estava previsto para 15h (4h em Brasília).
O índice Nikkei, da Bolsa de Tóquio, fechou em queda de 2,9%, com 15.341 pontos --uma perda de 464 pontos, maior para um único dia desde 10 de maio de 2004. Ontem a Bolsa já havia registrado perda de 2,8%.
"Pedimos profundas desculpas pelo problema que isso deve ter causado a todos os envolvidos", dizia um comunicado da Bolsa de Tóquio enviado por fax a diversas mesas de negociação no país.
Promotores e a polícia fizeram uma batida na sede da empresa, em Tóquio, na segunda-feira devido a uma suspeita de "contabilidade criativa"-- o diário japonês "Yomiuri Shimbun" divulgou que a empresa seria suspeita de ocultar um déficit de 1 bilhão de ienes (US$ 8,703 milhões) em seus resultados do ano fiscal encerrado em setembro de 2004.
A Livedoor é chefiada pelo geek, termo usado para designar viciados em tecnologia, Takafumi Horie, 33, que tem status de celebridade no Japão: já tentou (sem sucesso) comprar um conglomerado de mídia do país e um time de baseball, além de aparecer freqüentemente em canais de TV japoneses. Reportagens na mídia local informam que a empresa, de alta visibilidade e renome por sua estratégia agressiva de aquisições, estava sendo investigada agora por manipular suas contas, elevando as receitas no ano fiscal encerrado em setembro de 2004 para transformar prejuízos em lucros.
Horie nega práticas ilegais da empresa. As autoridades não comentaram a notícia do Yomiuri Shimbun.
O caso da Livedoor foi o estopim para a disparada de vendas de papéis no setor de tecnologia, que já havia se ressentido dos resultados pouco animadores da Intel. O princípio de pânico na Bolsa japonesa, com um segundo dia de vendas de papéis, levou a uma enxurrada de ordens de venda, forçando o fechamento antecipado do pregão.
Confiança
A confiança na Bolsa de Tóquio foi abalada devido a uma série de problemas nos últimos meses. O presidente da Bolsa de Tóquio, Takuo Tsurushima, apresentou sua demissão no mês passado após um caso de erro de informática durante o pregão.
Além dele, o responsável pelos sistemas de informática da Bolsa, Sadao Yoshino, e o diretor-geral de mercado, Tomio Amano, também se demitiram.
No dia 8 do mês passado, os técnicos da Bolsa de Tóquio não conseguiram detectar e impedir uma operação errônea efetuada por um operador da Mizuho Securities. O operador se enganou em uma operação da empresa J-Com: ao invés de colocar uma ação da empresa a 610 mil ienes (US$ 5.219), ele colocou 610 mil ações da empresa à venda por 1 iene (US$ 0,0085) cada. A empresa dispunha de 14.500 ações para venda. O erro custou à Mizuho Securities um prejuízo de mais de US$ 340 milhões.
No dia 1º de novembro já havia ocorrido uma falha no sistema dos computadores da Bolsa, que causou uma interrupção das negociações por mais de quatro horas.
O premiê japonês, Junichiro Koizumi, disse que o fenômeno ocorrido na Bolsa de Tóquio hoje foi "temporário" e que a economia do país continua "comprometida com a via da recuperação".