Rio de Janeiro, 06 de Abril de 2026

Escândalo bilionário da era Bush vem à tona nos EUA

Quarta, 28 de Junho de 2006 às 07:25, por: CdB

O promotor que atua no primeiro julgamento federal dos EUA sobre o extinto programa da ONU que previa a troca de petróleo iraquiano por alimentos disse nesta terça-feira que apresentará provas de propinas, intrigas e táticas escusas que, segundo ele, ajudaram Bagdá a manipular as Nações Unidas. O promotor Michael Farbiarz apresentou seus argumentos iniciais no julgamento do lobista sul-coreano Tonsgun Park, acusado de agir clandestinamente em prol do regime de Saddam Hussein.

Farbiarz disse ter provas de que durante 1996, durante o segundo mandato de George Bush, Park recebeu quantias vultosas do Iraque, inclusive um envelope com US$ 100 mil, e que no final daquele ano o programa "petróleo por comida" estava em vigor. Mas o advogado Michael Kim disse que Park era apenas "um intermediário ou facilitador, como quase todos envolvidos no gigantesco jogo internacional do petróleo e do dinheiro."

Na época em que o Iraque estava submetido a sanções internacionais, o programa petróleo por comida permitia que Bagdá vendesse quantidades limitadas de petróleo para comprar alimentos e outros gêneros essenciais, com fins humanitários. Mas investigadores dizem que o programa, que movimentou US$ 67 bilhões, estava contaminado pela corrupção.

Vários réus respondem a processo na corte federal de Nova York. Kim pediu aos jurados que não se deixem levar pelas acusações de intriga e lembrou que Park não foi acusado de espionar ou vender acesso à ONU. Park, de 71 anos, é acusado de conspiração para cometer fraude eletrônica, agindo como agente não-registrado de um governo estrangeiro, e de lavagem de dinheiro. Embora se diga inocente, poderá ser condenado a cinco anos de prisão.

- O promotor ficou dizendo a vocês 'Saddam Hussein, Saddam Hussein', como dizendo que poderia converter o que afinal de contas não era um crime em um crime, ao despertar suas paixões - afirmou o advogado. O promotor disse também que o empresário americano-iraquiano Samir Vincent, que admitiu trabalhar para Saddam, vai depor sobre reuniões que manteve com o ex-secretário-geral da ONU Boutros-Ghali, que não foi envolvido no escândalo.

Farbiarz disse que Park foi alistado por Vincent para usar seus contatos na ONU a fim de promover os interesses iraquianos, fazendo "lobby" para a criação do programa.

- Tongsun Park explicou que teve acesso à pessoa no topo da ONU, o secretário-geral Boutros Boutros-Ghali - disse o promotor. Segundo ele, os dois homens se reuniram com Boutros-Ghali na sua residência, e Vincent em seguida passou informação clandestina a Bagdá.

Vincent falou na terça-feira no tribunal, descrevendo uma série de viagens a Bagdá e de reuniões com autoridades iraquianas, inclusive o ex-vice-primeiro-ministro Tariq Aziz, entre 1992 e 96. Falhas administrativas e fraudes no programa petróleo por comida foram documentadas por uma comissão criada pela própria ONU em 2005. O relatório disse que o Iraque reservou US$ 15 milhões para subornar Boutros-Ghali, secretário-geral de 1991 a 96, mas que não havia evidência de que ele havia recebido o dinheiro. Park ficou famoso na década de 1970 como o lobista que deu centenas de milhares de dólares a parlamentares, no escândalo de tráfico de influências que ficou conhecido como Koreagate.

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