Rio de Janeiro, 22 de Abril de 2026

Escândalo antes da Copa: A filha de Ronaldo não é brasileira

Por Rui Martins - Esse é o tipo de manchete, título ou notícia a se evitar num ano de Copa do Mundo. Afinal esse nosso ídolo dá aquela contribuição ao prestígio internacional da nossa amada terra Brasil, salve salve, e depois aparece um jornalista desocupado colocando informação maluca na mídia? (Leia Mais)

Terça, 21 de Fevereiro de 2006 às 16:41, por: CdB

Esse é o tipo de manchete, título ou notícia a se evitar num ano de Copa do Mundo. Afinal esse nosso ídolo dá aquela contribuição ao prestígio internacional da nossa amada terra Brasil, salve salve, e depois aparece um jornalista desocupado colocando informação maluca na mídia? Uma tremenda falta de respeito com nosso craque que, emigrante como outros dois milhões de brazucas, contribuíu para levar nossos genes ao exterior.

Dizer que a filha de Ronaldo, nascida na Itália, do ventre verde-amarelo de Susana Werner, não e´brasileira é certamente coisa de quinta-coluna pago pelos alemães para desestabilizar nossa equipe programada para o hexa, em junho. Porque se a filha de Ronaldo não é brasileira, logo vem outro dizendo que a do Romário também não é e, não demora muito, outro jornalista desocupado alardeia que as filhas e filhos de todos nossos futebolistas nascidos no exterior, não são brasileiros.

Perdão, nem todos os filhos e filhas de futebolistas emigrantes, só os filhos nascidos depois de julho de 1994. Para ser exato, não são só os filhos e filhas de futebolistas, mas todos os filhos e filhas de emigrantes brasileiros, nascidos depois de julho de 1994 no exterior, não são brasileiros natos. Mesmo aqueles moleques brasileiros fanáticos com camiseta verde-amarela na 5ª Avenida, nos Champs-Elysées ou na Bahnhofstrasse não são brasileiros.

Pior, eles mesmos não sabem e vão tomar um susto, quando em julho de 2012, ao completarem 18 anos, confiscarem seus passaportes nos consulados brasileiros espalhados pelo mundo. Na verdade, quase ninguém sabe. Nem meu editor-chefe, nem o governador e se o prefeito, sabia, já esqueceu. E quem sabe, no Itamarati, está pouco ligando porque isso é coisa de emigrante brasileiro pé-de-chinelo. (Menos nossos futebolistas, é claro!)

E ninguem se mexe para remendar a emenda que mudou, em 94, o artigo 12 da nossa Constituição de 1988. De acordo com essa emenda perpetrada, há doze anos, os filhos de brasileiros nascidos no exterior somente se tornam brasileiros se vierem (forem) viver no Brasil e pedirem a cidadania. Coisa simples que precisa ser requerida por advogado na justiça federal, custando por baixo, por baixo, uns mil dólares, suficientes para deixar apátridas muitos brasileirinhos.

É verdade, a filha de Ronaldo (que ele não saiba disso antes da Copa!) tem um passaporte provisório, um passaporte de favor, que só valerá até completar 18 anos, quando será retirado, se não viver no Brasil. Que o Brasil não faz nada pela sua cultura no exterior toda Europa sabe, são as comunidades que organizam cursos de língua brasileira, festas, carnavais, bibliotecas. Mesma coisa nos EUA e no Japão. Mas essa de que o passaporte de filhos de brasileiros nascidos no estrangeiro é provisório pouca gente sabe.

E não quero nem estar perto de um consulado ou embaixada brasileira, daqui a seis anos, em julho de 2012, quando, friamente, seus funcionários começarem a confiscar os passaportes dos filhos dos nossos emigrantes.

Rui Martins é jornalista, radicado na Suíça.

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