As aventuras de três vacas que lutam contra a avareza das grandes corporações podem ser o irônico fim da era dos tradicionais desenhos animados que durante cerca de 80 anos forma produzidos pelos estúdios de Walt Disney.
Trata-se de 'Home on the Range', o mais novo filme de animação do estúdio que deu vida a Mickey Mouse e cuja estréia nos Estados Unidos está prevista para acontecer no dia 2 de abril, marcando um possível fim dos filmes animados feitos a base de lápis e papel.
- O que se diz é que este é o último filme que têm planejado, o que quer que isso realmente signifique - disse Alan Menken, compositor deste novo musical em referência à companhia que produziu os famosos 'A Pequena Sereia' e 'A Bela e a Fera'.
Por enquanto, o estúdio que fez da animação uma arte não tem planos de filmar outro longa-metragem feito da forma tradicional.
Diante do sucesso de outros estúdios como Pixar, DreamWorks e Blue Sky, com 'Procurando Nemo', 'Shrek' ou 'Era do Gelo', a Disney preferiu deixar para trás sua tradição e aderir às tecnologias mais modernas.
- É duro pensar em um futuro assim, mas todos sabemos que a forma mais flexível de tecnologia é a que funciona - admite Menken, que nunca trabalhou em um filme 3D, como são conhecidas as produções de animação por computador.
A mudança de tecnologia soma-se a um duro período para um dos grandes conglomerados midiáticos dos Estados Unidos.
Nos últimos meses, o estúdio perdeu uma valiosa aliança com a Pixar, viu fechar suas instalações de animação em Paris, em Tóquio e na Flórida (EUA) e sofreu tensões internas que pediam a renúncia de seu agora diretor geral, Michael Eisner.
- Digamos que existem problemas morais na comunidade de animadores - afirmou Will Finn, diretor e roteirista do último longa-metragem que tem 25 anos de experiência como animador da Disney.
Mais oficialista, a produtora do filme, Alice Dewey, preferiu eliminar qualquer sombra de crise na companhia.
- Sente-se forte, ativa e com grande energia - disse Dewey, que destacou que a companhia conta com o mesma equipe que trabalhava nos tempos de 'O Rei Leão'.
Para Finn, o que muda é a forma de fazer os filmes, que retoma fórmulas usadas antigamente.
- Despediam toda a equipe e quando havia um novo projeto contratavam todos de novo - explica o animador.
No entanto, muitos desses projetos parecem contar com o número dois atrás do título, sempre que se referem a filmes de animação tradicional.
Entre eles, 'Mulan', 'Bambi', 'As Loucuras do Imperador' e 'Tod e Toby', para os quais os estúdios Disney preparam continuações para serem exibidas em vídeo e na televisão.
Estes são exemplos do que Roy Disney, sobrinho do criador dos estúdios e principal líder da revolta contra Eisner, descreveu como falta de originalidade da atual presidência.
- Minha filha de doze anos expressou com eloqüência o tema das seqüelas dos filmes de animação: não lhes basta viverem felizes? - resume Roy Disney em sua página de Internet www.savedisney.com.
Cíclico parece ser o pensamento na mente de todos os integrantes da 'Home on the Range', palavra que aplicam à animação e ao futuro de sua forma mais tradicional.
- Será a última por enquanto, mas não para sempre - ressalta Finn.
Nem ele, nem Dewey nem Menken podem confirmar futuros projetos com a Disney.
Menken sabe que esses ciclos existem há quinze anos, época em que entrou na empresa e que passava por uma série crise. Os estúdios saíram da crise recorrendo ao classicismo dos musicais aplicado à animação.
- Só espero que não se perca isso que esses animadores me ensinaram a apreciar como uma das maiores formas artísticas americanas - disse o compositor.
Era dos desenhos tradicionais da Disney pode chegar ao fim
Quarta, 17 de Março de 2004 às 22:45, por: CdB