Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 2026

Episódios do teatro institucional

Quarta, 15 de Junho de 2011 às 05:25, por: CdB

A verdadeira luta de classes nesse período está se dando ao redor das taxas de juros, novamente aumentadas pelo Banco Central

15/06/2011

 

Editorial ed. 433

 

Nos últimos dias tivemos dois episódios importantes do teatro institucional, em que ficou mais clara a postura estúpida e atormentada das elites burguesas subalternas aos interesses do capital internacional, manifesta em suas posições políticas e retratadas por sua imprensa. 1. O caso Cesare Battisti O primeiro episódio foi o julgamento tardio - prolongado injustamente durante quatro anos - e manipulado do caso Battisti. Não cabe aqui julgarmos se o senhor Cesare Battisti participou ou não dos crimes a ele imputados. O que ficou claro em todo o processo é que ele participou de uma organização político-militar e, portanto, de natureza política. Em segundo lugar, que em todo o tempo o governo italiano se envolveu no caso, obviamente por interesses político- ideológicos. Então, estava claro que o caso tinha natureza política e não se tratava de ‘crimes pessoais’. Definida a natureza política, era necessário que o Brasil defendesse sua soberania nacional, sobre quem decide dar guarida ou não. Ou seja, o tema é de soberania nacional.

O senhor Gilmar Mendes (o mesmo que teve que assinar um termo de ajuste de conduta com o Ibama, pois sua fazenda no Mato Grosso não fez recomposição de reserva legal) se prestou mais uma vez ao papel da elite colonizada, puxa-saco de quinta categoria, querendo prestar serviço, e alegar que o Brasil não poderia afrontar os interesses do Estado e do governo italiano. Francamente... já tivemos membros do STF mais idôneos. Felizmente por seis votos a três, a maioria do colegiado manteve a decisão soberana do presidente da República e impediu a extradição de Cesare Battisti. A imprensa burguesa, que fez de tudo pressionando para sua expulsão, voltou a vociferar, insaciável, nos jornais e televisões. Nenhuma dessas vozes tão “humanistas” foram ouvidas, no jornal da Band ou da

Globo, quando o Brasil aceitou o asilo do ditador paraguaio, general Alfredo Stroessner, sobre o qual pesava a responsabilidade de centenas de assassinatos. Triste papel teatral de meia dúzia de jornalistas bem pagos para mentir e enganar. E seu comportamento só demonstrou que de fato se tratava de um caso político, e não comum!

2. O caso Pallocci

A imprensa burguesa e seus representantes no parlamento fizeram um estardalhaço em torno das consultorias do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, acusando-o de tudo. Mas nenhum deles pediu a relação das empresas a quem ele prestou assessoria. Certamente muitas delas faziam o mesmo tipo de consultoria com outros próceres tucanos, ex-presidentes do Banco Central e ex-ministros da Fazenda, que também enriqueceram vendendo informações privilegiadas. Sobre isso, um silêncio sepulcral! Ficaram vociferando, tentando criar uma crise governamental falsa. Quando o governo agiu, embora tardiamente, e substituiu Antonio Palocci pela senadora Gleisi Hoffmann (PTPR) para ocupar a chefia da Casa Civil da presidência da República, outro espanto. Eles esperavam a nomeação de alguém mais próximo do mercado, que continuasse servindo aos interesses das empresas e do capital. Mas assim, de repente, convidar uma senadora com pouco trânsito empresarial, era demais.

A imprensa burguesa comportou-se igual aos cães que latem quando um carro passa correndo, e ficam sem saber o que fazer quando o carro para.

O fato é que essa questão envolvendo o comportamento do ex-ministro Palocci deveria ser abordada no âmbito da necessária reforma política do Estado brasileiro. Ou seja, é preciso recompor o financiamento público de campanha e criar regras claras de comportamento dos eleitos, com direito ao povo de convocar plebiscitos revogatórios de mandatos. Mas nada disso foi abordado.

3. Os verdadeiros embates

Ora, os verdadeiros embates não foram feitos. E não se trata de ignorância ou má informação. Afinal, o papel da imprensa burguesa é justamente pautar temas triviais, do teatro institucional, enquanto os verdadeiros temas que afetam os interesses das classes e do povo brasileiro permanecem discretos. Assim, evita-se que o povo tenha conhecimento, debata, conscientize- se e posicione-se.

A verdadeira luta de classes nesse período está se dando ao redor das taxas de juros, novamente aumentadas pelo Banco Central. Em torno das metas do superávit primário, valor reservado e transferido pelo tesouro nacional para os títulos dos bancos, que em quatro meses já atingiu a meta do ano. O tema da reforma política, necessária, que a grande imprensa segue escondendo. O tema do processo de desindustrialização do país, denunciado até por estudos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em que a indústria nacional perde cada vez mais espaço para as empresas transnacionais. O tema da taxa de câmbio, que favorece apenas aos importadores. Enfim, a luta de interesses de classes passa longe das páginas de jornais e dos noticiários televisivos. Esperamos que um dia o povo se dê conta, desligue a televisão e volte às ruas.

Tags:
Edições digital e impressa