Baltasar Gárzon Real, o pequeno Balta, estava trancado num seminário espanhol nos idos de 70 enquanto o general Augusto Pinochet mandava e desmandava do outro lado do mundo, no Chile, proporciando o terror da ditadura que poucos hoje resgatam na memória. Desde então, passaram- se 30 anos para o estrelato do garoto que deixou o seminário por causa de uma namorada. Os destinos de Gárzon e Pinochet se cruzaram em 1998, quando o espanhol, na condição de juiz com poderes de julgar crimes de terrorismo e contra os direitos humanos, conseguiu um mandado de prisão do general enfermo, em Londres. O episódio rendeu a Gárzon o reconhecimento internacional. Mas ele já era conhecido em seu país pelas prisões sucessivas de terroristas do ETA (milícia que recorre a atentados na luta pela libertação do país Basco) - lá, Gárzon só anda com quatro seguranças; dois deles fizeram a escolta do juiz no Rio, semana passada, quando conheceu o Pão de Açúcar. É pausado na fala, mas não perdoa quem considera corrupto. De suas mãos já partiram mandados de prisão contra o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi - por sonegação -, e contra um cunhado do ex-presidente argentino Carlos Menem, por lavagem de dinheiro do tráfico. Atualmente trabalha na 5ª Vara da Audiência Nacional, na Espanha - um tribunal sem similar no Brasil, que foi criado em 1977, após a ditadura franquista, para investigar, sem limites territoriais, os casos de terrorismo, narcotráfico e lavagem de dinheiro. Foi lá que nasceu a idéia de "um sistema de normas comuns entre os países e um espaço judiciário único para o combate ao narcotráfico na Europa", que defende com afinco, como mostrou em palestra realizada na PUC-Rio esse mês. Mostra-se um dom Quixote realista. Sua luta pela justiça vai além dos direitos humanos. Sonha com a queda das "fronteiras judiciárias" na União Européia para o combate efetivo ao crime organizado - inclui nisso os países do Mercosul -, ao passo que admite ser "um esquema muito complexo" o caminho junto às instituições financeiras - que, segundo ele, dificultam o acesso às informações do escoamento do dinheiro do narcotráfico. A eloqüência de juiz de renome esbarra, no entanto, ao analisar o caso de Fidel Castro. Diante da pergunta se prenderia ou não Fidel pelo fuzilamento de cubanos dissidentes (lembremos do fato de ele ter pedido a prisão de Pinochet), esquiva-se da resposta. "Não quero me manifestar sobre isso. Sou absolutamente contrário à pena de morte e contra as violações dos direitos humanos. Isso é inaceitável" - disse-me, deixando no ar a dúvida se julgaria Fidel se um dia o líder cubano vier a se afastar do poder, como Pinochet. E voltou a desconversar: "Cuba tem suas normas. Formalmente deve-se analisar muito esse caso do fuzilamento". Pinochet sabe bem o que é isso. Leandro Mazzini é jornalista.
Entre Pinochet e Fidel
Por Leandro Mazzini - Baltasar Gárzon Real, o pequeno Balta, estava trancado num seminário espanhol nos idos de 70 enquanto o general Augusto Pinochet mandava e desmandava do outro lado do mundo, no Chile, proporciando o terror da ditadura que poucos hoje resgatam na memória. (Leia Mais)
Segunda, 02 de Junho de 2003 às 08:27, por: CdB