Ficou insuportável a participação do Lobão nos shows do Cachorro Grande aqui no Rio. Lá pelas tantas o fã do quinteto gaúcho se perguntava por que diabos o criador de Vida bandida e Decadence Avec Elegance se tornou tão over, tão demasiado? Enfim, e porque o Lobão aparecia nos shows do Cachorro Grande?, se pergunta o leigo. Oras, porque ele é o responsável pelo sucesso da banda. E sem dúvida, a banda é o maior sucesso de sua revista criada no final de 2003, a Outra Coisa.
Aí o público carioca foi apresentado para a maior banda de rock brasileira desde o Barão Vermelho (apesar de uma banda não ter nada a ver com a outra). As próximas horas serão muito boas, o segundo disco do Cachorro, encartado na Outra Coisa, era a melhor coisa que se podia ouvir em muito tempo. E aí, o óbvio aconteceu. Banda relativamente rodada assina com gravadora emergente. Muita expectativa. A imprensa apostou todas as fichas em Pista livre, o novo cd do Cachorro, primeiro pela Deckdisc (que fez o favor de relançar o primeiro e homônimo disco, Cachorro Grande - da falida Stop Music -, uma aula de rock).
E aí o Lobão é o verdadeiro herói da história. Lançou uma revista com alguma qualidade que trouxe discos bem legais (entre eles: B Negão, Mombojó, o citado do Cachorro Grande e Arnaldo Baptista). Nessa leva, pode ser apontado como o verdadeiro irmão da banda gaúcha. Se não fosse por ele, nada disso estaria acontecendo. Daí se justifica as mais do que exageradas presenças do Lobão nos encerramentos dos shows do Cachorro no Rio. A coisa ficou tão entrosada que o Lobão chamou o grupo para gravar uma música no seu então novo trabalho. E os gaúchos fizeram o mesmo. Lá está a voz do Lobão em Agora eu tô bem louco, segunda faixa de Pista livre e umas das composições mais pesadas (e chatas) do disco.
Música de Pista
Por que o disco do Cachorro Grande se chama Pista livre? No vídeo de divulgação (um making of canhestro, é verdade) a banda dá as resoluções mais absurdas. A mais adequada é a de que uma estrada (ou rua) estaria livre, desimpedida. A capa do disco é meio isso. O quinteto em umas motos, numa pista completamente livre, em um deserto. A imprensa já tinha dado a dica. Essa era "a hora e a vez do Cachorro Grande". O disco confirma, foi masterizado em Abbey Road por Chris Blair. Nada mais iria segurar a banda. Para o sofrimento de Lobão, o irmão, a primeira música de trabalho, Você não sabe o que perdeu, começou a tocar na Rádio Cidade. Pista livre...
Outra resolução dada pelo grupo no vídeo/ release para o nome do disco era de que naquele álbum estariam contidas músicas de pista, ou seja, dançantes. E também faz um certo sentido, mas o trocadilho fica até meio cafona. Por outro lado, deve se considerar um fato: o que faz Pista livre funcionar são exatamente esses flertes com a tal música de pista.
Quando uma banda já fica no estigma de rock retro, o rótulo limitador impede que se desenvolvam propostas mais maduras. Pista livre dá um certo drible nisso. E pelo que indica as faixas, digamos tradicionais, de rock em Pista livre, Você não soube o que perdeu e Agora eu tô bem louco, foi na hora H. Ficou limpo demais, o rock gravado ao vivo de As próximas horas soa bem diferente do som aparadinho desse novo disco. Perde-se o peso, ganha-se em produção. Esse é o trabalho mais bem produzido da banda. É também o mais fraco, sem contudo deixar de render ótimos momentos. Pista livre é quase todo aproveitável, pena que existem resquícios do que seria o bom rock da banda. Faltou um pouco mais de radicalismo na maneira de apostar nas tais músicas de pista, o que faria com que o disco ficasse impecável.
Curiosamente, esse tom um tanto dançante, fora dos padrões dos trabalhos anteriores, tem uma seme
Rio de Janeiro, 21 de Maio de 2026
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