Uma questão que não sai dos noticiários é a enxurrada de dólares que tem entrado no Brasil. Neste mês, até a última 6ª feira, o fluxo de entrada superou a saída em US$ 8,1 bi, segundo o Banco Central. De um lado desse boom estão os exportadores, que aproveitam a alta da moeda para trazer recursos ao país. Estima-se que sejam responsáveis por mais da metade desse movimento. Só via comércio exterior, entraram US$ 4,3 bi no mês. Já no movimento de dólares relativo às operações financeiras - investimentos e remessas de lucro - o saldo está positivo em mais US$ 3,8 bi.
O assunto pautou boa parte das discussões do Fórum Nacional, coordenado pelo ex-ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso, no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Economistas presentes à reunião chamaram a atenção para o problema. "A curtíssimo prazo, a grave ameaça é o câmbio", resumiu o ex-embaixador e ex-ministro da Fazenda, Rubens Ricúpero. "As importações é que capturam as oportunidades de consumo", disse, argumentando como a indústria brasileira perde competitividade com o real valorizado.
Na visão de Raul Velloso, o problema deverá persistir. O Brasil vai continuar atraindo dólares, e, portanto, mantendo o real valorizado. "O BC virou um operador de overnight dos bancos estrangeiros”, resumiu ele. Mencionando os problemas de financiamento da produção, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor-geral do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), por sua vez, alertou: "É uma anomalia extraordinária só termos o BNDES para financiar o longo prazo no país".
Spread de 28%
Do jeito em que a coisa anda, não há outra saída para o Brasil. Se quisermos repensar o câmbio não poderemos mais conviver, internamente, com os juros mais altos do mundo. Aliás, digo aqui, um spread de mais de 28% é uma aberração que só se mantém pela falta de concorrência no setor bancário brasileiro e pela Selic estratosférica.
A pergunta é: Até quando vamos ter um sistema bancário que não financia a produção – só o faz em casos excepcionais e apenas diante de garantias absolutas? Neste país seu papel praticamente se resume a uma mera intermediação de recursos fáceis. No consumo, paga-se taxas escorchantes – no crédito especial ou no cartão de crédito, ou mesmo no crédito direto ao consumidor. Isso, aliado ao serviço da dívida interna, desvia para o rentismo e ao lucro do sistema financeiro brasileiro uma parcela expressiva da renda nacional.