A Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), órgão ligado às Nações Unidas encarregado de aplicar as convenções internacionais relativas às drogas, divulgou ontem, dia 03, em Viena, na Áustria, seu informe anual sobre a presença das drogas no mundo. Na ocasião, a entidade destacou a delinqüência e a violência que o abuso de drogas gera nas comunidades, principalmente dos países intermediários do tráfico, como México e Brasil.
Este ângulo do problema das drogas, chamado pelo relatório de "microssocial", está, segundo a organização, sendo relegado pelos governos mundiais, que preferem centrar os esforços nos grandes fluxos transnacionais do narcotráfico. Essa opção tem resultado na reversão do impacto causado pelas drogas nos consumidores finais (Estados Unidos e Europa) para os países que fazem parte da rota do comércio clandestino de entorpecentes, como no caso do México.
No México, conforme assinalado por Alfredo Pemjean, membro da Jife, o controle fronteiriço mais eficiente para deter o trânsito de cocaína e de heroína, a partir da América do Sul e do território mexicano em direção aos Estados Unidos, teve efeitos imprevistos.
"Na medida que o controle fronteiriço se tornou mais eficaz, a droga ficou, por assim dizer, a meio caminho, no México, e isso está tendo duas conseqüências: um aumento da criminalidade local e um aumento do consumo de drogas local. O México aumentou seu consumo de drogas de forma muito rápida nos últimos anos, embora ainda este esteja muito abaixo do consumo estadunidense", afirma Pemjean.
Como exemplo da magnitude da delinqüência relacionada às drogas, o informe cita o caso do Brasil, onde a violência vinculada às drogas se constitui um problema particularmente grave, com repercussões negativas nas comunidades. Uma grande percentagem dos quase 30 mil homicídios registrados a cada ano no país, segundo a entidade, pode ser atribuída ao abuso e ao tráfico ilícito de drogas.
O documento aponta para a situação de risco dos meninos de rua. "As crianças de rua, que servem de mensageiros para os traficantes, cumprem uma função importante nesse mercado ilegal e muitas vezes são assassinadas porque sabem ou desviam muito ou porque ficam presos no fogo cruzado entre quadrilhas e intermediários", descreve o informe.
A Junta comenta que "o próprio tecido da sociedade civil está em perigo em virtude da presença constante nas comunidades da delinqüência violenta relacionada às drogas. Com isso, estas comunidades também estão sujeitas a maiores níveis de outros tipos de delitos e às perturbações na sociedade civil associadas a elas". Assim, a entidade aconselha aos governos destes países que os serviços de repressão anti-drogas devem operar com mais discernimento e reconhecer a importância da participação da comunidade.
Entidade alerta para o impacto microssocial das drogas
Sexta, 05 de Março de 2004 às 07:16, por: CdB