Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Enterrado o papa, Igreja se volta para o futuro

Sábado, 09 de Abril de 2005 às 07:02, por: CdB

Depois de prestar suas últimas homenagens a João Paulo II em um majestoso funeral na sexta-feira, a Igreja Católica começa nos próximos nove dias a discutir as muitas questões que o sucessor dele terá de enfrentar.

Os 116 cardeais que participam do conclave a partir do dia 18 irão se reunir diariamente até lá a portas fechadas no Vaticano e em jantares informais nos restaurantes de Roma para trocar opiniões sobre como os 1,1 bilhão de católicos devem ser liderados.

Mais de 160 cardeais, inclusive alguns com mais de 80 anos, que não participam do conclave, se juntaram ao povo e aos poderosos no Vaticano para se despedir na sexta-feira de um papa que simbolizou a Igreja em todo o mundo durante mais de 26 anos.

"Santo subito!", gritava a multidão em italiano, pedindo a canonização imediata de João Paulo II, durante a missa solene, em latim, realizada na praça de São Pedro.

Embora vários cardeais tenham dito que querem um papa como João Paulo II, eles sabem que não há um sucessor evidente. Vários italianos e latino-americanos são cotados, mas os conclaves muitas vezes reservam surpresas.

- Todos os cardeais estão realmente conscientes do fato de que esta é a responsabilidade mais solene que eles vão exercer nas suas vidas, escolher um sucessor de são Pedro - disse o cardeal norte-americano Justin Rigali a jornalistas.

- Não é uma eleição no sentido comum da palavra. É uma escolha baseada no que acreditamos ser melhor para o povo de Deus e para o mundo inteiro - disse outro norte-americano, Edward Egan, à CNN.

Como esse tipo de reunião é rara, os participantes do conclave também precisam de tempo para se conhecerem melhor.

- Não haverá sessões para conchavos - disse o arcebispo de Bruxelas, cardeal Godfried Danneels, tentando despistar os repórteres que tentam antever as discussões dos "príncipes da Igreja".

As reuniões diárias da Congregação Geral são secretas e a Igreja exige que os participantes não revelem seu conteúdo. Os cardeais estão, aliás, sob pressão para não falarem nada à imprensa, para não alimentarem especulações.

- Acho que desta vez a nacionalidade, a cor da pele e as origens terão um papel muito menor do que antes - disse o cardeal Karl Lehmann, da Alemanha, país cujos cardeais foram essenciais na articulação que levou à eleição de Karol Wojtyla, em 1978.

Embora evitem discutir nomes publicamente, os prelados passaram os últimos dias revelando à imprensa os temas que eles consideram mais prioritários para o futuro pontífice.

O arcebispo de Chicago, Francis George, citou o crescente sentimento anti-religioso na Europa, a pobreza mundial, os problemas éticos despertados pela ciência moderna e a competição com o Islã como os temas principais.

- Não podemos ter uma pessoa para fazer tudo isso - admitiu.

Como a maioria dos cardeais comanda arquidioceses, outra questão importante será a possibilidade de diminuir a influência da Cúria Romana sobre as decisões da Igreja.

- Fico tentado a dizer que eu preferiria ver um pastor ser eleito, um bispo que tenha experiência com trabalho de campo - disse Henri Schwery de Sion, único suíço no conclave.

Um melhor equilíbrio entre o Vaticano e as igrejas locais é um dos poucos pontos de acordo entre os leigos reformistas e os cardeais, que, com três exceções, foram todos nomeados por João Paulo II e em geral partilham de suas opiniões doutrinárias conservadoras.

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