Enquanto a direita tenta voltar ao poder e setores da esquerda aceitam ser instrumentalizados por ela, seguiremos lutando para transformar o país no "outro Brasil possível" e indispensável, junto a todas as vítimas dessa imensa ditadura social, especulativa e midiática.
Enquanto isso, morrem 10 pessoas por dia no Iraque, uma Constituição é aprovada e divide ainda mais o país.
Enquanto isso, a rejeição do presidente dos EUA chega a seu nível mais alto, não apenas pela condução da guerra no Iraque, mas também pela sua política interna.
Enquanto isso, o Brasil mantém a maior taxa de juros reais do mundo, mais do que o dobro do país que está em segundo lugar, continuando a transferir milhões de dólares diariamente do setor produtivo para o especulativo.
Enquanto isso, o Brasil continua a ser o país mais injusto do mundo - superado apenas por Serra Leoa, pequeno e pobre país africano, envolvido em guerra civil.
Enquanto isso, a violência segue devastando a Colômbia, envolta em um processo de guerra interno com a participação ativa de tropas dos EUA, provocando a maior catástrofe que esse país já viveu. E seu presidente se preocupa com a reeleição.
Enquanto isso, o prefeito de São Paulo aprova publicidade nos uniformes e o governador do Estado privatiza tudo o que vê pela frente - só não consegue privatizar a Febem -, revelando do que seriam capazes de fazer com o país, caso se tornassem presidentes da República.
Enquanto isso, FHC se candidata a ser o homem de confiança do governo Bush na América Latina, atacando o governo de Hugo Chávez, para agradar - como fez ao longo de todo o seu governo - os EUA (onde pretende ser embaixador).
Enquanto isso, a reforma agrária não avança, nem os financiamentos para os assentamentos, nem a desapropriação e instalação das centenas de milhares de famílias vivendo precariamente, que reivindicam simplesmente o direito de trabalhar em terras ociosas.
Enquanto isso, o Ministério da Fazenda continua a congelar os parcos recursos que o orçamento reserva para as políticas sociais.
Enquanto isso, a grande mídia privada - cada empresa pertencente a uma família da oligarquia brasileira - continua a exercer a ditadura da formação de opinião pública, com um vergonhoso sensacionalismo - em contraste com toda a corrupção que esconderam do governo FHC.
Elevam Roberto Jefferson e Severino a seus novos heróis, apenas porque se opõem à esquerda.
Enquanto isso, os modelos neoliberais de livre-comércio e de livre circulação de capitais seguem devastando o mundo, provocando a maior miséria que a humanidade presenciou, com o silêncio cúmplice dos colunistas da grande imprensa, empenhados em contentar seus patrões.
Enquanto isso, setores da "esquerda que a direita gosta" seguem recebendo generosos espaços na mídia, porque se dispõem a atacar o governo Lula e o PT, sem nem sequer uma palavra de crítica à direita, aos bancos, ao imperialismo, ao capitalismo, à burguesia - que os acolhem, satisfeitos de instrumentalizá-los.
Enquanto isso, a direita acredita que vai voltar ao poder, para voltar a governar o país como tem feito ao longo dos séculos de história brasileira, produzindo todas as catástrofes que têm feito do Brasil a maior ditadura social do mundo e o que deveria ser exibido diariamente como a maior vergonha do país - caso tivéssemos uma mídia independente e crítica formando a opinião pública do país.
Enquanto isso - e sempre - seguiremos lutando que transformar o país no "outro Brasil possível" e absolutamente indispensável, junto a todas as vítimas dessa imensa ditadura social, especulativa e midiática.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de <i>A vingança da História</i>.