Tanto a Suíça como o Brasil querem mudar a lei para forçarem as pessoas a trabalhar mais antes de se beneficiar da aposentadoria. Tanto o governo suíço como o governo brasileiro (isso inclui também o governo de Dilma, se os leitores ainda têm memória) mentem descaradamente.
Por Rui Martins, de São Paulo:
Em algumas coisas o Brasil se parece com a Suíça, nas outras são extremos.
Uma delas está na questão da Previdência. Tanto a Suíça como o Brasil querem mudar a lei para forçarem as pessoas a trabalhar mais antes de se beneficiar da aposentadoria.
Tanto o governo suíço como o governo brasileiro (isso inclui também o governo de Dilma, se os leitores ainda têm memória) mentem descaradamente.
Meirelles, que já foi homem de confiança de Lula (lembram-se ou se forçam para esquecer?) quer mudar a lei propondo um aumento da idade para homens e mulheres, a fim de evitar a falência do nosso sistema previdenciário.
Pura fumaça e enganação.
Todo mundo sabe que um desempregado com 55 anos, de colarinho branco ou em funções de chefia, não encontra facilmente um emprego e um trabalhador na pesada, mal alimentado como costuma acontecer, está no limite das forças ao chegar aos 60.
Então o que se esconde embaixo dessa tentativa de aumento da idade da aposentadoria?
Uma esperta jogada destinada a economizar para o INSS, o que nos outros setores se gasta à vontade.
Vejam bem, um empregado com bom salário, funções de chefia, demitido aos 55 anos, corre o risco de ficar sem um novo bom emprego até os 65 anos. Sem empregador para pagar sua parte, desempregado e sem condições de recolher o que antes recolhia para os fundos de aposentadoria, chegará à idade da aposentadoria com direito a uma pensão quase mínima.
Quase o mesmo ocorrerá com o trabalhador braçal ou em atividades insalubres ou extremamente cansativas, obrigando-o a recorrer a licenças por doença e incapacidade para o trabalho. Ao chegar aos 65 anos, receberá uma ninharia, bem menos do que receberia aos 60 anos.
Ou seja, a grande jogada não é a de fazer as pessoas trabalharem mais para compensar os anos que vivem mais, pois muitos estão desempregados e a maioria dos que vivem alguns anos a mais já estão com a saúde precária.
O objetivo é sórdido - é o de descartar ou de diminuir o valor da aposentadoria de milhões de empregados e trabalhadores de uma maneira sutil, acobertada por cálculos enganadores. Sem contar os milhões que morrem antes de chegar a aposentadoria, número que irá aumentar com o aumento da idade para se aposentar.
Além disso, já começou e irão se acentuar nos próximos anos a automatização, a robotização e inteligência artificial, fatores importantes não discutidos na reforma da Previdência, pois poderão acabar com 50% dos trabalhos atuais, gerando uma explosão de desempregados por não haver mais empregos.
Para se evitar que o mundo mergulhe num caos social, a partir de agora já se discute na Europa, e cada vez mais, a diminuição das horas de trabalho (na França, já se trabalha 35 horas semanais e o programa do candidato socialista previa 32 horas) e o aumento das semanas de férias com a diminuição (vejam bem, diminuição) da idade para chegar à aposentadoria.
Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.
Editor do Direto da Redação.