Rio de Janeiro, 23 de Setembro de 2026

Encruzilhada da guerra comercial

Terça, 05 de Julho de 2011 às 06:55, por: CdB

O Brasil defendeu ao Mercosul na semana passada que os países membros aumentassem a sua proteção comercial frente à crescente onda de produtos baratos vindos da Europa, Ásia e Estados Unidos. A proposta deve ser discutida em breve e abrirá a possibilidade de cada membro aumentar individualmente seus tributos de importação sobre bens que não façam parte da zona.

“Temos (os países em desenvolvimento) sofrido as conseqüências do excesso de liquidez produzido nos países ricos – que compromete nossa competitividade”, afirmou a presidenta Dilma Rousseff a seus pares do Mercosul. Segundo ela, há países que estão buscando vender na região os produtos que não encontram mercado no mundo rico.

Em paralelo, moedas apreciadas pelo crescimento das economias locais – algumas vivenciando a expansão do PIB a taxas de 7%, a exemplo da Argentina e Peru – estariam favorecendo a perda de competitividade de suas indústrias.

Cautela

O cenário, no entanto, exige um tratamento cauteloso, afirma José Botafogo Gonçalves, experiente diplomata, que já foi embaixador especial para Assuntos do Mercosul, e atualmente preside Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Para Botafogo, que também já foi secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), o uso de instrumentos de defesa comercial é legítimo e legal nos casos de ações antidumping, ou para coibir subsídios ao produtor no exterior. Também apóia o uso de salva-guardas nos casos de surtos repentinos de importações que provoquem danos ao produtor nacional. Mas, para ele, a adoção de defesas comerciais de forma ampla e generalizada pelo bloco do Mercosul pode não ser a melhor estratégia.

“Temo que alguns governos resolvam ser protecionistas por que suas indústrias estejam com dificuldades de competir”, avalia. O quadro não facilita, admite. No caso específico do Brasil, juros altos estão combinados com um dólar em constante depreciação, o custo país elevado e uma logística no limite – a exceção da usada pelas commodities agrícolas e minerais. “O problema é que as empresas sempre pedem proteção e os governos, muitas vezes, cedem a essa tentação”, diz.

Botafogo acredita que a defesa comercial – que prevê o aumento do imposto de importações para vários produtos – é uma faca de dois gumes. “No curto prazo, traz benefícios. Mas, no longo, agrava a falta de competitividade de toda a indústria”, adverte. “É uma prática que a Argentina adotou largamente e hoje sua indústria está cada vez menos eficiente”, exemplifica.
Ele compara o uso da defesa comercial ao bombeiro que, para pagar um incêndio no sofá, alaga totalmente a sala de estar. “O estrago causado com a água pode ser maior que o provocado pelo fogo”, diz.

Outra agenda

O ex-diplomata admite que o Brasil não está acostumado com ter o real cotado na casa dos R$ 1,50 em relação ao dólar. “E ele ficará nesse patamar por um bom tempo”, avisa. Para Botafogo, o Brasil será um dos destinos mais prováveis do excesso de liquidez internacional, pois aqui a remuneração do capital é atraente, frente aos títulos norte-americanos. “O país está crescendo, há grandes projetos produtivos e o governo está relativamente aberto ao capital internacional”, afirma.
Contudo, as ameaças, principalmente do capital especulativo, devem ser encaradas de outra forma. Segundo Botafogo, o xis da questão da defesa da indústria local é a redução do custo Brasil. “Esta é a agenda que proponho”, resume.

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