Rio de Janeiro, 29 de Setembro de 2026

Encontro com Ernesto Sábato

Sexta, 15 de Julho de 2011 às 08:32, por: CdB

O escritor argentino, Ernesto Sábato, autor do clássico "Otúnel”, faleceu aos 99 anos, em 30 de abril, em Buenos Aires. A 30 de outubrode 1986, convidado pelo Instituto Argentina-Brasil, jantamos juntos em SãoPaulo. Recebeu-me no restaurante do hotel Maksoud, onde se hospedava.

Disse-me que, devido a problemas na vista, quase já nãopodia ler. Lembrei de Jorge Luis Borges e indaguei se essa era uma síndrome dosgrandes talentos literários da Argentina. Ele sorriu…

Contou-me que sua mulher, Matilde, havia lido para eletrechos de Fidel e a Religião. Ficara bem impressionado com a abertura do lídercubano ao tema e tivera a oportunidade de conhecer melhor os conceitosnorteadores da Teologia da Libertação.

Falamos sobre a Igreja e o reacionarismo dos bispos daArgentina, que apoiaram a ditadura militar. Ernesto estava comovido com oencontro que tivera, naquela tarde, com o cardeal Paulo Evaristo Arns, a quemmuito admirava, por sua intransigente defesa dos direitos humanos.

— Ele medisse que noventa por cento dos bispos do Brasilestão na mesma linha que ele - comentou.

— Acho que ele exagerou um pouco -retruquei.— A maioria émoderada. É verdade que os progressistas têm hegemonia na conferênciaepiscopal, mas não se pode dizer que a maioria é progressista.

— Preocupa-me a viagem que o papa fará a Argentina nopróximo ano –disse Sábato.—Temo que venha a respaldar os bispos que apoiaramditadura e, agora, sabotam o processo de redemocratização.

— Por que você não escreve uma carta pessoal, aberta, aopapa, sugerindo como ele deve chegar à Argentina? Isso terá mais impacto do quequalquer manifesto assinado por duzentos intelectuais.

Ernesto Sábato ficou mordido pela mosca azul, mas temia quetal gesto fosse interpretado como cabotino.

— Sei que teria impacto, mas temo que me julguemmegalomaníaco.

— Creio que não há esse risco porque você tem autoridademoral e intelectual para isso. O cidadão argentino Ernesto Sábato escreve umacarta ao cidadão do mundo Karol Wojtyla. Isso, inclusive, contribuiria paradessacralizar um pouco a imagem do papa. Afinal de contas, o papa não podereforçar a posição dos bispos da Argentina em favor da ditadura.

— Acho a ideia sedutora. Mas vou consultar meus filhos.

Passamos aos países socialistas. Contou-me ter sidocomunista:

— Não desses de salão, mas desses de largar a família ecumprir todas as tarefas. Com a revelação dos crimes de Stálin, me afastei dopartido. Não entendo porque em Cuba não há eleições. Sou amigo de RobertoFernández Retamar, presidente da Casa das Américas, com quem já conversei sobreisso. Ele diz que ainda não é o momento.

— Creio que isso se deve à influência soviética. Masacredito que, com o atual processo de relatinoamericanização do regime cubano,se chegue a isso. Há na Ilha um desbloqueio ideológico, e ‘Fidel e a Religião’é um sintoma disso.

Falei a ele de minhas impressões da Polônia e da UniãoSoviética, que eu visitara recentemente. E comentei sua atuação em São Paulo:

— Achei o debate de ontem um desperdício. Você falava em AMe, os demais integrantes da mesa, em FM.

Ernesto Sábato riu:

— Eu percebi.

— Ali estava o suprassumo da racionalidade academicista,esse pessoal que não aceita sua postura mítica e mágica.

Trocamos gentilezas: pensou que eu tivesse menos de 42 anos,e eu julguei-o com 63. Tinha 75.

Falamos da mística cristã:

— Creio –disse eu- que o futuro homem novo da América Latinaserá filho do casamento entre Santa Teresa de Ávila e Ernesto Che Guevara.

— Estou de pleno acordo –admitiu.— Os únicos livros querevolucionaram a humanidade são aqueles que tratam da questão espiritual, comoa Bíblia e o Corão. Mas, como admitir um Deus que permite a morte de criançaspela fome? A existência do mal me impede de admitir a ideia de Deus.

[Frei Betto é escritor, autor do romance policial "HotelBrasil – o mistério das cabeças degoladas” (Rocco), entre outros livros.

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