Rio de Janeiro, 19 de Março de 2026

Empresas financiam a maior parte das campanhas políticas

De cada R$ 100 gastos pelos candidatos na campanha deste ano, pelo menos R$ 10 vieram dos cofres de empresas do setor de construção, siderurgia, agronegócio ou bancos. Os quatro setores foram os principais doadores declarados pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). (Leia Mais)

Terça, 14 de Novembro de 2006 às 09:55, por: CdB

De cada R$ 100 gastos pelos candidatos na campanha deste ano, pelo menos R$ 10 vieram dos cofres de empresas do setor de construção, siderurgia, agronegócio ou bancos. Os quatro setores foram os principais doadores declarados pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O balanço é parcial, pois quase 40% dos candidatos ainda não entregaram sua declaração. Também não leva em consideração quem doou dinheiro para as campanhas presidenciais, dado ainda não divulgado. As maiores doações foram R$ 66,3 milhões das construtoras, R$ 21,6 milhões das siderúrgicas, R$ 19,6 milhões do agronegócio e R$ 17,8 milhões do mercado financeiro. Somente esses setores responderam por 10% da arrecadação de campanha.

O financiamento de empresas privadas à campanha de candidatos a cargos públicos é criticado por um grupo de 20 entidades da sociedade civil. Reunidas, elas estão elaborando um projeto de reforma política, a ser apresentado ao Congresso Nacional, que extingue a doação privada.

- Na prática, isso é tráfico de influência porque a empresa banca a campanha mas quer o retorno - critica Eliana Graça, do Fórum Brasileiro de Orçamento uma das organizações que elaboram o projeto Reforma Política: Construindo a plataforma dos movimentos sociais. Alguns movimentos sociais também criticam as doações, por considerá-las formas das empresas garantirem privilégios no tratamento do Estado.

Algumas das principais empresas doadoras afirmam que o financiamento é transparente e feito dentro da legislação. O banco Itaú, que juntamente com o Unibanco foi o principal doador do mercado financeiro, afirmou, em nota, que o apoio às candidaturas "se insere no conceito de responsabilidade da empresa com a democracia e de comprometimento com o desenvolvimento do país". A Aracruz, uma das principais financiadoras do setor de agronegócio, afirma que a doação é uma contribuição ao "amadurecimento do processo democrático".

Críticas

A doação de dinheiro para a campanha de políticos é uma forma de garantir espaço político no Congresso Nacional e nos governos estaduais e federal. O objetivo final seria a manutenção ou ampliação de privilégios que o Estado brasileiro oferece a essas empresas. Essa é a avaliação de duas organizações que criticam o financiamento privado de campanhas, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). No caso das siderúrgicas, que doaram R$ 21,6 milhões às campanhas eleitorais deste ano, o interesse seria manter o subsídio ao consumo de energia elétrica, afirma o MAB.

- Têm interesse de manter esse modelo e fortalecer os seus representantes no Congresso e nos cargos executivos - critica Marco Antonio Trierveiler, da coordenação nacional do MAB.

Trierveiler apresenta números sobre a tarifa de energia elétrica para comprovar que há interesse das siderúrgicas em financiar campanhas. Segundo dados do MAB, o preço da energia elétrica para o consumidor familiar está em até R$ 0,68 por quilowatt/hora. Mas as siderúrgicas recebem um subsídio, determinado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que lhes permite pagar até R$ 0,07 centavos por quilowatt/hora.

É o caso, segundo Trierveiler, do Rio Grande do Sul, onde a siderúrgica Gerdau pagaria R$ 0,07 pelo quilowatt/hora. Para o consumidor familiar, o custo seria de R$ 0,64. Só entre os candidatos gaúchos, a empresa Gerdau doou cerca de R$ 5 milhões. A assessoria de imprensa da siderúrgica não conseguiu localizar nenhum representante da empresa para conceder entrevista até o fechamento desta matéria.

Defesa

A doação de dinheiro para candidatos a cargos públicos é uma forma das empresas contribuírem com o debate democrático, argumentam duas das principais financiadoras de campanha no país, o banco Itaú e a fábrica de celulose Aracruz. "Contribuímos para o amadurecimento do processo democrático com o incentivo à participação de to

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