Rio de Janeiro, 02 de Outubro de 2026

Empresas devem mudar modo de pensar e mobilizar consumidores à sustentabilidade

Quinta, 21 de Julho de 2011 às 11:24, por: CdB

Foto:Divulgação

Aformiga é um ser de força admirável, ela consegue carregar até 50 vezes o seupróprio peso, o que, para um homem de 80 quilos, significaria 4 toneladas. Emtermos ambientais e referentes às mudanças climáticas, um brasileiro classemédia de 80 quilos pode não carregar tanto quanto uma formiga, mas seu consumoe gasto de reservas naturais emite mais de uma tonelada de carbono por ano.

É oque afirma Ernesto Cavasin Neto, especialista em sustentabilidade empresarial egerente executivo da PricewaterhouseCoopers. No mês de junho,Cavasin lançou o livro Toneladas sobre os ombros, em que comenta aquestão do aquecimento global em relação a um consumo mais responsável.

Ementrevista ao portal EcoDesenvolvimento.org, Cavasin explicou porque omundo enfrenta tantos desafios na redução do aquecimento global e deu areceita: será preciso que as empresas mudem seu modo de pensar e impulsionemseus consumidores a um mundo mais sustentável.

PortalEcoD - A ONU prevê que a Terra chegue a 7 bilhões de habitantes em 31 deoutubro de 2011. Quais os principais problemas que enfrentaremos com essasuperpopulação?

Cavasin- Nósenfrantaremos problemas com alimentação, consumo de energia e tantos outros quelevam a uma questão em cadeia, que é o aquecimento global. Se quisermosalcançar a meta de apenas 2 graus centígrados de aquecimento global até 2050,nós temos que reduzir as emissões hoje em 60% a 80%. Como o que emitimos no anode 2010 foi em torno de 36 milhões de toneladas, tem que se reduzir no mínimo21 milhões e 600 mil toneladas.

Alémdisso, quando a gente vê o mundo chegando a 7 bilhões de pessoas, a gente podeperceber que menos de 1/3 dessas pessoas tem uma condição de vida que nósacreditamos ser digna, e 2/3 da população vive abaixo dessa qualidade que nóscriamos. Se formos mais simplistas, podemos pensar que na África e em algunslugares da América do Sul, a pessoa ainda cozinha utilizando a lenha que catouno meio do mato. Ou seja, ainda precisamos ter um grande avanço na introduçãode água tratada e energia elétrica na vida dessas pessoas.

Essessão os dois principais desafios do aquecimento global: reduzir as emissões em60% a 80% e, ao mesmo tempo, incluir 30% a mais de pessoas no consumo deenergia, em um mundo que alcança os 7 bilhões agora, mas em 2050, a tendência éque tenha 12 bilhões de pessoas. Sem contar que esse crescimento também aumentaa necessidade de produção de alimentos para mais 5 bilhões de pessoas. Há umasérie de fatores que correm a favor do desastre ambiental.

Cavasinafirma que a inclusão dos recursos naturais
noorçamento de produção de uma empresa é uma
dasmaneiras de ajudar a refrear o aquecimento global.
Foto:PwC Brasil/Divulgação

Comovencer esses desafios e realizar as mudanças?

Geralmente,as pessoas só realizam mudanças quando são forçadas a tomar decisões drásticas.Um exemplo é quando se descobre um câncer e tem que fazer uma cirurgia, não hájeito, será se submeter a tratamentos fortes. Com as mudanças climáticas nóstemos um problema muito sério, mas o tratamento não pode ser nem homeopático,nem ser uma intervenção cirúrgica. É preciso fazer um trabalho de reeducaçãoutilizando as ferramentas que a gente já conhece.

Euvejo que hoje, se reunirmos todas as tecnologias de baixo carbono que já temos,a grande dúvida que temos é a seguinte: "Pô, vou trocar todas as lâmpadasdo meu escritório por LED, mas isso não vale à pena financeiramente".Pensamos que não vale a pena financeiramente porque o custo de uma lâmpada LEDé bem maior que o de uma lâmpada normal, mesmo que a LED dure 10 anos e anormal seis meses, como é confiável investir todo esse dinheiro agora se nãosabemos o que vai acontecer daqui a quatro ou seis anos?

Masse, ao contrário, pensarmos na quantidade de recursos naturais que serãopoupados com a troca de uma para outra e no custo do carbono que é emitido dadaa diferença do consumo de energia, talvez comece a fazer mais sentido.

Então,será preciso mudar o modelo de avaliação do modo de produção...

Poisé. Esses são custos que nós já conseguimos calcular. A logística reversa, porexemplo, já é realidade em várias partes do mundo e tende a ser aqui no Brasiltambém, isso gera um custo. O carbono tem valor de mercado, você pode calculara diferença de emissões da vida útil de uma lâmpada LED para uma normal, ouquantas normais você vai precisar comprar para alcançar a lâmpada LED.

Nóstemos que começar a agregar os valores que hoje não estão sendo compultados. Acadeia de valor hoje não cita a parte ambiental, a própria água, principalmentea que a gente consome aqui no Brasil, não é paga, o que é pago é o tratamento,bombeamento e distribuição da água, mas a água é de graça. E se a gente nãoestá pagando pela água, qual o valor que a gente dá a ela?

Então,é necessário que a gente comece a valorizar os benefícios ambientais para sabero quanto nós podemos, para que possamos experimentar soluções para os problemasdo aquecimento. É essa a visão, o valor dos serviços que o meio ambiente prestapra gente, que a gente acaba não valorizando e tendo que integrar isso dentrodo custo dos produtos hoje, para ter uma diferenciação entre os produtos quesão ambientalmente mais corretos e os produtos que não são.

O programa "Água das Florestas" é um trabalho da
Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com a
Coca-Cola para a preservação da bacia do RibeirãoPiauí,
que abastece cidades de São Paulo.
Foto: Divulgação

Quandoas empresas vão começar a se dar conta da necessidade de realizar essescálculos?

Não sóas empresas, mas esse deve ser um caminho percorrido por toda a sociedade.Todos têm que reduzir. As empresas são formadas por pessoas e o gráfico de comoo meio ambiente afeta a nossa vida a gente vê mais dia ou menos dia, seja em enchentesou secas. E tudo isso tem que ser compultado já. Se um vendaval passa nointerior de Santa Catarina, ele pode gerar custos desnecessários a uma empresa,custos que poderiam ser reduzidos caso houvesse um preparo.

Algumasempresas já sentem isso e começaram a calcular e analisar os gastos. É possívelver grandes produtores de bebidas, como refrigerante e cerveja, com umapreocupação enorme para reduzir a quantidade de litros de água que usa paraproduzir o seu produto, com projetos para proteger mananciais e tudo mais.Outro exemplo são algumas empresas de energia, que também buscam proteção dosmananciais de água e dos rios que elas operam.

E comofazer para trazer isso ao consumidor?

O queprecisa fazer hoje, na minha opinião, é integrar as cadeias. Ou seja, nós sóvamos conseguir resolver o problema do meio ambiente e do aquecimento global,quando conseguirmos fazer produtos melhores de forma melhor. É preciso reduziras emissões na produção e na utilização desse produto por parte do consumidor também.

Umalâmpada mais eficiente vai reduzir as emissões do meu cliente, mas ele tem queestar estimulado a comprar isso. O preço ainda é um grande fator de decisão nahora da compra, mas a questão do "ecologicamente correto" ainda não.Então, nós precisamos integrar o consumidor diante dessa cadeia de valor.

Asempresas têm que entender que precisam mobilizar o consumidor na questãoambiental como um todo. Não faz sentido a gente continuar a combater oaquecimento global através de políticas públicas e em alguns projetos degrandes emissores. Nós temos que integrar toda a cadeia, do consumidor aodistribuidor, do vendedor ao produtor, de uma forma mais ambientalmentecorreta.

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