A empresa que organiza o banco de dados Matrix entregou ao governo dos Estados Unidos uma lista de 120 mil pessoas que, segundo um perfil computadorizado, podem ser considerados possíveis terroristas, disse um grupo de direitos civis na quinta-feira.
A empresa Seisint, da Flórida, que criou o cadastro, disse em documentos do governo, obtidos pela União Americana de Liberdades Civis (ACLU), que a lista do "Alto Fator de Terrorismo" levou a várias prisões.
A Seisint criou a lista logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, aparentemente agindo por conta própria, segundo a ACLU.
O grupo pediu uma investigação do governo para determinar quem teve acesso à lista com 120 mil nomes e como a informação foi usada. A entidade qualificou o programa como uma assustadora invasão de privacidade, que permite à polícia investigar milhões de cidadãos que cumprem a lei sem o seu conhecimento.
"As pessoas dessa lista deveriam ficar preocupadas", disse Barry Steinhardt, diretor do programa de privacidade e tecnologia da ACLU.
"Simplesmente ser associado a uma lista terrorista prejudicará as vidas das pessoas."
Autoridades envolvidas no programa dizem que o "quociente terrorista" foi abandonado quando o Matrix foi desenvolvido. Mas a ACLU afirma que os documentos obtidos por meio das leis que garantem a liberdade de informação nada dizem a esse respeito e que a montagem de perfis computadorizados era "um tipo de ponto central para vender o programa".
A Seisint não respondeu aos repetidos telefonemas para que comentasse o assunto. A empresa privada, de Boca Ratón, Flórida, cria produtos que "garimpam dados", analisando rapidamente bilhões de arquivos eletrônicos para extrair informações úteis.
Com base nos perfis dos sequestradores que agiram no 11 de setembro, o programa de quociente de terrorismo examinou critérios como idade, gênero, etnia, histórico como motorista, existência de brevê de piloto, histórico de crédito e proximidade com endereços e telefones sabidamente ligados a atividades criminosas, segundo a ACLU.
Os nomes que tiveram as maiores "notas" foram entregues às autoridades federais e, segundo os documentos obtidos pela ACLU, levaram a várias prisões.
No ano passado, a Seisint conseguiu um contrato para gerenciar o Intercâmbio Multiestadual de Informações Antiterroristas, um programa piloto que ficou conhecido pela sigla de suas iniciais em inglês, Matrix. Ele permite que várias autoridades policiais cruzem bilhões de arquivos eletrônicos para localizar criminosos.
Além de documentos públicos, como fichas policiais e registros de veículos, o Matrix inclui dados como históricos de crédito e informações "em estado bruto" de investigadores, que segundo a ACLU podem conter erros e levar a acusações infundadas.
O Matrix já causou polêmica. Ele foi lançado em 2003 em 13 Estados dos EUA, incluindo mais da metade da população nacional. Muitos Estados, porém, abandonaram o programa por causa do custo e de preocupações com a segurança. Agora só restam cinco -- Flórida, Pensilvânia, Connecticut, Michigan e Ohio -, que concentram 19 por cento da população dos EUA.
O Departamento de Segurança Doméstica deu 8 milhões de dólares ao programa no ano passado. Um documento obtido pela ACLU mostra que o departamento tinha "supervisão e controle gerencial" sobre ele.
A ACLU quer agora que o Congresso corte o financiamento público ao programa Matrix e diz que ele é "substancialmente similar" ao malfadado Consciência Total da Informação, com o qual o Pentágono pretendia criar um programa mundial de "garimpagem de dados."
As notícias sobre esse programa criaram o temor de que os EUA estivessem se tornando um Estado policial, e o Congresso se recusou a financiá-lo.