Rio de Janeiro, 17 de Maio de 2026

Emparedar Lula?

Luis Gonzaga de Souza Lima, brilhante cientista político da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, há anos trabalha a hipótese interpretativa segundo a qual nosso pais seria melhor entendido historicamente, se partíssemos da constatação de que desde seus primórdios foi e continua sendo uma empresa privada multinacional, das mais bem sucedidas que se tem notícia no Ocidente. (Leia Mais)

Quinta, 14 de Julho de 2005 às 22:07, por: CdB

Luis Gonzaga de Souza Lima, brilhante cientista político da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, há anos trabalha a hipótese interpretativa segundo a qual nosso pais seria melhor entendido historicamente, se partíssemos da constatação de que desde seus primórdios foi e continua sendo uma empresa privada multinacional, das mais bem sucedidas que se tem notícia no Ocidente. Épocas houve em que sua moeda era de longe a mais valorizada do mundo. Pelo fato de ser empresa privada nunca pôde construir realmente uma sociedade organizada nem criar um estado que realizasse um projeto coletivo. Elites portuguesas, espanholas e inglesas articuladas com elites crioulas ocuparam o ensaio de Estado em benefício próprio mantendo entre 50-60% da população escravizada ou empobrecida. Espírito privatista das capitanias hereditárias, do escravagismo, da posse de terras por compra em dinheiro, o assalto organizado aos bens do arremedo de Estado, confusão do público com o privado, o patrimonialismo, os compadrios, a falsificação de documento e a corrupção mais deslavada pertencem à lógica desta empresa. Cada geração lhe deu uma moldagem, mas sua estrutura de base permaneceu inalterada até os dias de hoje. Uma classe política se formo com este tipo de ethos de salteadores. Consideram a república coisa deles. Chegando lá sentem o direito de depredá-la para si. Digamos que houve exceções até para não cometermos um erro metafísico. do mal absoluto e das honrosas exceções. 

Qual é o escândalo atual? Que um metalúrgico, um sobrevivente da fome, assentado num vasto movimento social que se opunha sempre a esse descalabro, conseguiu romper a blindagem político-institucional e ser eleito Presidente. As classes argentárias nunca o aceitaram mas tiveram que engoli-lo política e economicamente. Com uma estratégia sutil, avalizada pelos organismos da ordem econômica mundial, conseguiram manter o projeto da macroeconomia a pretexto de evitar o caos sistêmico e de garantir a governabilidade. Mas esta estratégia não os tranqüilizou as elites. Suspeitam que os movimentos sociais poderão, num momento crítico, pressionar o Governo a mudar as regras do jogo econômico dando centralidade ao social. Há que emparedar Lula, proclamam. Ele é um obstáculo à volta das elites ao poder. É empecilho ao seu enriquecimento perverso. Importa afastá-lo.

O lugar de operário é na fabrica, no eito e na produção, não no governo e da gerência da coisa pública. Trata-se de uma questão de cultura de classe. O fato da corrupção que deve ser investigada e condenada ofereceu agora a ocasião que faltava para suscitar o velho sonho traiçoeiro das elites.

Como realizá-lo? Políticos do PFL e do PSDB, geralmente rapagões, sem sentido de responsabilidade pelo pais já aventam um processo de impeachment. A outra estratégia já foi enunciada por um dos ícones da política velhista, carcomida e corrupta, quando disse com todas as letras. "Não queremos o impeachment de Lula, querermos desmoralizá-lo, sangrá-lo e liquidá-lo para que seja envergonhado publicamente e derrotado nas eleições para desaparcer para sempre do cenário político". Estou convencido de que esses políticos manejam velhos esquemas. Agora não será mais assim. O povo saberá, aos milhares, defender sua conquista histórica. Botarão para correr aqueles vendilhões como Jesus o fez no templo de Jerusalém. "Que se vayan, que se vayan todos".

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