Com 76 milhões de negros, o Brasil é a segunda maior nação negra do mundo, atrás apenas da Nigéria. Nossa culinária, a religião e outras manifestações perpetuam os elementos culturais trazidos pelos escravos durante a colonização européia. Entretanto, as relações políticas e econômicas entre o Brasil e os países africanos não refletem, até o momento, essa identidade.
Como afirmou o embaixador da África do Sul no Brasil, Mbuelo Rakwena, países em desenvolvimento mantêm, ainda, como prioridade, os relacionamentos com Estados Unidos e Europa. É com o objetivo de alterar essa lógica que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve ir à África ainda este ano.
A viagem, que estava marcada para acontecer entre os próximos dias 5 e 12, foi adiada, segundo o Planalto, devido ao momento crucial na tramitação das reformas no Congresso. Na próxima semana, o projeto da reforma da Previdência, que vem provocando ruídos e conflitos entre governo e sociedade, entra em votação no plenário.
O presidente Lula preferiu ficar e administrar pessoalmente os embates políticos. Segundo o Itamaraty, já está sendo discutido com os países a serem visitados uma nova data para a viagem, inicialmente em novembro. Deve ser a mais atribulada viagem de Lula ao exterior.
Se ocorresse na próxima semana, acompanhariam o presidente nove ministros de Estado, cerca de 200 empresários e diretores das principais agências de cooperação e investimentos brasileiras. No roteiro da viagem, Moçambique, África do Sul, Namíbia, São Tomé e Príncipe e Angola. Alguns dos principais interesses do Brasil são aumentar o fluxo de negócios e compartilhar projetos sociais com os países africanos.
O diretor do Departamento da África do Itamaraty, o embaixador Pedro Motta, explica as principais estratégias dessa viagem, e o embaixador sul-africano faz um balanço da nova política adotada pelos países em desenvolvimento. A África do Sul é um dos principais parceiros do Brasil no continente africano.
O Diretor Geral do Departamento da África do Ministério das Relações Exteriores, o embaixador Pedro Motta, disse que há identidade de interesses entre os países africanos e o Brasil e que vai exportar projetos sociais para combater fome e aids no continente.
As ações brasileiras no combate à aids ganham importância em um continente onde a doença matou 17 milhões de pessoas nas duas últimas décadas, quase tanto quanto catástrofes históricas como a gripe espanhola no início do século passado (20 milhões) e a peste negra, na Idade Média (25 milhões).
De cada três infectados pela aids no planeta, dois vivem na África. O investimento brasileiro em ações sociais na África se justifica, segundo Pedro Motta, pela necessidade de solidariedade entre os países.
— Se há enchentes na região Sul do Brasil, isso não quer dizer que nós não seremos solidários com os países vizinhos e com a África quando eles têm enchentes lá. Dentro das nossas limitações, temos que trabalhar com eles, senão é melhor fechar as portas. Hoje não podemos viver no isolamento — conclui.