Rio de Janeiro, 27 de Março de 2026

Em quem votar?

Por Bernardo Kucinski: Essa pergunta me foi feita ontem por uma funcionária da USP. Lá sou identificado como 'petista roxo'. Fiquei pensando: como ela, muitos dos que na última eleição votaram em Lula hoje hesitam. Mas, ainda assim, a maioria do povo quer a reeleição. Por quê? Quem dá essa resposta é o cientista político Luiz Cláudio Lourenço.

Sábado, 30 de Setembro de 2006 às 08:17, por: CdB

Essa pergunta me foi feita ontem por uma funcionária da USP. Lá sou identificado como 'petista roxo'. Fiquei pensando: como ela, muitos dos que na última eleição votaram em Lula hoje hesitam. As denúncias da imprensa contra o PT pegaram pesado. Para alguns, a tentativa de comprar provas de que o esquema sanguessugas foi montado no governo FHC foi a gota d´água. Votar em Lula, depois disso? Mas também não querem votar no pessoal do FHC. Daí a pergunta, sofrida, sentida. Em quem votar?

A resposta é dada hoje com muita clareza no jornal Valor por Luiz Cláudio Lourenço, cientista político da Universidade Cândido Mendes. Contestando a maioria dos jornalistas que se proclamam formadores de opinião e atribuem a preferência do povão por Lula à ignorância, Luiz Cláudio diz que, ao contrário, o povo está sendo muito mais racional do que os pretensos formadores de opinião. O povo está votando pelos resultados concretos do governo Lula, que ele sente no seu cotidiano, na sua vida, na vida de sua família. Comida mais barata, mais dinheiro no bolso, mais oportunidades para seus filhos adolescentes. "Sua preocupação é sobreviver, não é julgar moralmente os políticos."

Isso não quer dizer, como argumentam depreciativamente alguns formadores de opinião, que o povão esteja simplesmente "votando com o estômago". Luiz Cláudio diz que o povo tem uma percepção "muito mais realista e muito menos romântica do poder". E aí chegamos na essência do seu raciocínio: o de que "a ação política deve ser orientada sobretudo por seus efeitos, pelos seus resultados à coletividade, enfim sua repercussão objetiva junto ao povo". A ação guiada pela moral deve ter pureza de princípios, mas "política e moral nem sempre são coisas que caminham de mãos dadas e cada uma tem sua própria lógica. Uma ação moralmente correta pode ser um desastre político".

O sociólogo alemão Max Weber já havia explicado tudo isso, definindo a diferença entre uma "ética de virtudes", na qual as pessoas adotam princípios para o seu comportamento pessoal, e o que ele chamou de "ética de responsabilidades", na qual o político tem que atentar principalmente para as conseqüências de suas decisões e escolhas. O curioso é que os formadores de opinião estudaram Weber nas escolas. Mas quem aplica racionalmente os ensinamentos de Weber é o povão, que sofre na pele as agruras da realidade política. O critério do povo é político e não moral. "O eleitor comum está, sim, comprometido com aquilo que pode ser verificável, ponderado, calculado... já o julgamento moral carece de cálculo e se baseia de maneira pura nos valores", diz Luiz Cláudio. O voto do povão no próximo domingo vai julgar uma política e vai determinar o futuro dessa política. Não vai fazer o julgamento moral de ninguém.

No Estadão, outro cientista político desenvolve raciocínio parecido, embora com muita raiva de Lula e torcendo para que ele seja derrotado. Dionísio Dias Carneiro lembra uma frase célebre do revolucionário francês Saint Just: "É impossível governar com inocência". Pragmático, embora um revolucionário, Saint Just notibilizou-se "por tentar conciliar propostas igualitárias com uma política econômica de sustentação do regime revolucionário". Dizia que era importante promover a felicidade do povão para impedir a derrota no novo regime. Invertendo a ordem do raciocínio de Saint Just, podemos dizer que é importante manter o novo regime, para garantir a continuidade e, se possível, o aumento da felicidade do povão.


Bernardo Kucinski, jornalista, é professor da Universidade de São Paulo. É autor, entre outros, de "A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro" (1996) e "As Cartas Ácidas da campanha de Lula de 1998" (2000).

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