Apesar das emoções que podem surgir do fato de estar a apenas três centímetros de uma tela pintada por Picasso, o público que visita o leilão de verão da casa Christie's parece mais interessado em um papelzinho pendurado ao seu lado: o preço, valor estimado, no mínimo, em US$ 7 milhões.
Em Hong Kong - que nesta semana recebe a visita de uma série de quadros de Van Gogh, Francis Bacon, David Hockney e o próprio Picasso - o visitante comum está mais preocupado com o preço das pinturas do que com o que elas representam.
Como disse Pilar Ordovás, diretora de arte contemporânea e de pós-guerra da casa de leilões britânica, "os visitantes se aproximam de mim e me perguntam: Quanto dinheiro está 'pendurado' nas paredes?".
- Aqui, em vez de olhar o quadro, olham a etiqueta - comenta. O que não seria tão grave se as obras penduradas na parede não fossem <i>Mulher sentada na poltrona</i>, de Picasso ou <i>Casa no Jardim</i>, de Cézanne.
Hong Kong, a antiga colônia britânica que se reintegrou à China em 1997, é uma cidade de luxos incontáveis.
E para os que contam com um Rolls-Royce, um triplex em um arranha-céu em frente ao porto de Victoria ou um iate ancorado em Deepwater Bay, uma obra de arte é uma aquisição imprescindível.
Uma bela compra poderia ser um auto-retrato de Francis Bacon que, junto com o resto das obras-primas, será leiloada no dia 22 de junho, em Londres, por um preço estimado de US$ 10 milhões.
Não menos impressionante é a escultura <i>Elogio ao Vazio V</i>, do espanhol Eduardo Chillida, que pode ser vendida por mais de US$ 1,5 milhão e que também está exposta no Centro de Convenções. Por lá, passam os visitantes, curiosos por uma arte que, aqui, parece exótica.
- A abstração não os preocupa, os atrai; o que os preocupa mais é uma representação que não conseguem entender - explica Ordovás.
Mas a viagem de obras deste calibre pela Ásia não responde nem a um desejo de ver o mundo, nem a uma casualidade.
-Hong Kong é um mercado maduro, e aqui já há um grupo de colecionadores muito interessados - disse a especialista.
Mas, além disso, "viemos investir no futuro e focar no mercado da China", conta Ordovás.
Segundo muitos analistas, o dragão tem as mesmas possibilidades de se transformar, futuramente, no que o Japão representou para o mercado da arte durante os anos 80 e 90.
As grandes casas de leilões se deram conta disso: a Christie's e a Sotheby's não passam um ano sem levar uma coleção cada vez maior até o Centro de Convenções e Exposições de Hong Kong.
Apesar da presença de peças ocidentais, os compradores desta parte do mundo continuam interessados, sobretudo, no trabalho que os pintores contemporâneos chineses estão desenvolvendo.
Desde o último domingo e até a próxima quinta-feira, a Christie's terá leiloado algumas das peças mais representativas das últimas correntes que apareceram no país asiático.
Apenas durante a sessão deste domingo, a casa britânica vendeu US$ 40 milhões em obras chinesas de décadas recentes, "a venda mais alta atingida nesta categoria no mundo", informou a empresa, em comunicado.
A obra <i>Chuva de pétalas sobre o povoado</i> de Chu The-Chun, nascido em 1920, foi vendido a uma colecionadora asiática por US$ 3,5 milhões, um recorde nas vendas deste artista.
Da mesma maneira, o quadro <i>Flores em uma jarra amarela brilhante</i>, criada por Sanyu, morto em 1966, foi vendida a outro comprador asiático a US$ 2,7 milhões, quatro vezes mais do que havia sido estimado pela Christie's.
O leilão continua, nesta terça-feira, com a venda de novas séries de pinturas contemporâneas chinesas, e com uma série de espetaculares caligrafias que datam de séculos atrás.
Em Hong Kong, preço impressiona mais que a obra de Picasso
Terça, 30 de Maio de 2006 às 09:57, por: CdB