Historicamente Portugal foi uma nação voltada para as grandes explorações marítimas e nós somos fruto dessa história. Nosso país irmão se caracteriza por sua variedade de uvas nativas, e está ressurgindo como uma fonte de vinhos modernos.
Os nomes curiosos de algumas castas (uvas) me chamam atenção. Na região do Porto, no Vale do Douro, onde se produzem os famosos vinhos fortificados do Porto, temos a Tinta Souzão (que dá cor a esses vinhos), a Tinta Cão e a Tinta Francisca.
Na região de Madeira temos a Tinta Negra Mole e a Engana Cão, essa videira que tem amadurecimento tardio é responsável pelo vinho de Madeira mais seco e mais elegante, o Sercial, e dá uvas com acidez que faz vir lágrimas aos olhos. Nas zonas do Ribatejo temos a famosa casta Periquita, que dá nome ao vinho e a uva branca Borrado das Moscas, usada para a vinificação dos espumantes na região do Dão.
Dentro da visão de modernidade dos vinhos de Portugal, a quente e seca região do Alentejo, no Sudeste, tem feito uma revolução com vinhos tintos encorpados de cores intensas. Cada vez mais vinhos interessantes de herdades (vinícolas) empolgantes têm sido importados e é sem dúvida uma das regiões mais promissoras do mundo. Até os brancos podem ser grata surpresa.
Essa região também é famosa pelas nozes, frutos – figos, melões, marmelos, amêndoas, azeitonas, romãs -, legumes e cereais – pepinos, pimentões, tomates, arroz e feijão. Nessa área, como no resto do país, criam-se galinhas, que os cozinheiros portugueses costumam cozinhar em molhos enriquecidos com vinhos.
O que mais me encanta no mundo do vinho são as possibilidades de num dia chuvoso e frio surgir um momento único de harmonização.
Harmonizar significa equilibrar o peso do vinho e da comida para que um não cubra o outro. Um rico e quente cozido português, com pimentões vermelhos e verdes, carne de boi e azeite de oliva merece um vinho tinto bem encorpado. O cozido tem uma característica particular da cozinha portuguesa: o sabor da pimenta vermelha mergulhada em azeite. Demora quatro horas para chegar à mesa, mas é uma delícia para os dias frios.
Esses dias raros e deliciosos são para serem desfrutados em família entre os cobertores, com bons livros, no aconchego, após harmonizar um Cozido de Portugal com um bom vinho português. A raridade de temperatura baixa na cidade do Rio de Janeiro, aonde a sensação térmica do último sábado chegou a 10°, fez com que eu nem precisasse resfriar o vinho.
A Importadora Beirão trouxe da Região do Alentejo, o Vinho Herdade dos Pinheiros, safra 2002, 13°, com as castas Aragonés, Trincadeira e Touriga Nacional que passou nove meses no carvalho americano e francês. Um vinho realmente potente, muito volumoso, com uma persistência de nariz muito boa e uma boca impressionante. Encontrei notas de frutas vermelhas que confere de um modo claro à ameixa e a framboesa maduras, trazendo também os traços de tostado da madeira. Tem um tanino evidente, equilibrado e com personalidade. É um vinho que vai continuar crescendo, com a expectativa de se tornar cada vez melhor.
Para completar a delícia do sábado gelado com do Cozido de Portugal harmonizado com o vinho Herdade dos Pinheiros, somente o ouro da Seleção Brasileira de Vôlei, no Pan Rio 2007.
Depois disso é só correr para o abraço!
Catia de Melo Silva
Membro da Association de La Sommellerie Internationale – ASI
catiademelosilva@globo.com
Rio de Janeiro, 08 de Fevereiro de 2026
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