O Líbano iniciou, nesta quarta-feira, três dias de luto pelo assassinato do ministro contrário ao governo sírio, atribuído por seus aliados a Damasco e que reativou as profundas divisões no país. O ministro da Indústria, Pierre Gemayel, cristão, foi morto a tiros em seu carro quando passava por um subúrbio cristão de Beirute na terça-feira. Ele é o sexto político com posições contra a Síria morto em quase dois anos.
O assassinato transformou o Dia da Independência do Líbano, nesta quarta-feira, em uma data sombria. Todas as festividades, incluindo o desfile militar, foram canceladas. O assassinato aumenta a tensão entre o governo anti-Síria e a oposição pró-Damasco liderada pelo Hezbollah, poderoso grupo guerrilheiro muçulmano xiita que está determinado a derrubar o que considera um gabinete pró-Estados Unidos.
A morte provocou condenação internacional e muitos políticos libaneses acusam a Síria de ter matado Gemayel e de ser responsável pelas morte do ex primeiro-ministro libanês Rafik al-Hariri, em 2005. A Síria condenou o assassinato de Gemayel.
- A desestabilização do Líbano está em curso hoje. Devemos responder a esta desestabilização com muita firmeza, com coragem. Aqueles que perpetraram e ordenaram estes assassinatos serão responsabilizados pelos seus crimes - disse o ministro do Exterior da França, Philippe Douste-Blazy, à rádio France Info.
O Conselho de Segurança da ONU aprovou na terça-feira planos para uma corte especial internacional para julgar suspeitos da morte de Hariri, mas o tribunal provocou divisões entre partidos libaneses rivais. A medida do Conselho, formado por 15 países, segundo a carta enviada ao secretário-feral Kofi Annan, permitiu o envio do plano para aprovação pelo governo libanês. Gemayel foi um dos membros do gabinete que na semana passada votaram a favor da aprovação do plano da ONU enviado ao governo do premiê Fouad Siniora.
Seu corpo foi levado do hospital perto de Beirute para sua cidade natal, Bekfaya, a nordeste da capital, onde centenas de simpatizantes acompanharam o caixão, carregando fotos do ministro e bandeiras brancas do Partido Falange.
Comoção
Enquanto a procissão passava lentamente pela casa da família de Gemayel, mulheres jogavam arroz das varandas na direção do caixão, coberto pela bandeira do partido. O funeral de Gemayel será realizado nesta quinta-feira e a coalizão anti-Síria convocou a população.
- O sentimento é indescritível. Quem o matou não quer a união do Líbano. Depois disso, as coisas vão ficar piores - disse à agência inglesa de notícias Reuters Fadi Jalakh, 27.
A polícia está investigando o caso e disse que não tem muito a relatar. Seis ministros de oposição, a maioria do Hezbollah, renunciaram antes da votação sobre o tribunal da ONU, colocando o governo em uma crise e provocando protesto do presidente Emile Lahoud, pró-Síria, que classificou a ação do gabinete de ilegítima.
"Pierre Amin Gemayel mártir do tribunal internacional", diz a manchete do jornal de Beirute Al-Liwaa. Depois do assassinato de Gemayel, a morte ou a renúncia de outros dois ministros derrubaria o governo de Siniora.
Saad, filho de Hariri, e seus aliados acusaram de imediato Damasco pela morte de Gemayel, dizendo ser uma tentativa de atrapalhar o tribunal da ONU. Uma investigação das Nações Unidas apontou envolvimento de autoridades de segurança sírias e libanesas na morte de Hariri. A Síria nega participação. O analista Rafik Khouri escreveu no jornal cristão Al-Anwar:
- O sangue do jovem ministro martirizado...cobriu a rua e revelou que o perigo que o Líbano enfrenta é mais grave do que muitos manifestaram.
As grandes manifestações organizadas depois do assassinato de Hariri levaram a Síria a encerrar 29 anos de presença militar no Líbano, em abril de 2005. O assassinato acontece depois do conflito devastador, em julho e agosto, no sul do Líbano entre