Rio de Janeiro, 25 de Agosto de 2026

Em "Além da Vida", Clint Eastwood se arrisca em tema escorregadio

A excelente forma profissional de Clint Eastwood pode mais uma vez ser comprovada no drama Além da Vida - no qual o cineasta se arrisca num tema muito escorregadio, a vida após a morte. Clint costura três histórias, em três diferentes locais do mundo.

Quinta, 06 de Janeiro de 2011 às 11:38, por: CdB
Aos 80 anos, Clint Eastwood vive uma década de ouro como diretor. Especialmente nestes anos 2000, muito embora outros de seus trabalhos impecáveis e premiados, como Os Imperdoáveis, pertençam aos anos 1990. Sua excelente forma profissional pode mais uma vez ser comprovada no drama Além da Vida - no qual o cineasta se arrisca num tema muito escorregadio, a vida após a morte. Contando com um roteiro do talentoso Peter Morgan (roteirista de A Rainha e Frost/Nixon), Clint costura três histórias, em três diferentes locais do mundo. A inteligência e sensibilidade do espectador são despertadas lentamente para interessar-se por essas pessoas e outras que as cercam. Flui naturalmente a curiosidade de saber como e quando se encontrarão - porque não é preciso ser médium para perceber que isso acontecerá. Marie LeLay (Cécile de France, de Um Lugar na Plateia) é uma bem-sucedida jornalista francesa, âncora de um respeitado programa de televisão. De férias na Indonésia com o namorado (Thierry Neuvic), ela é surpreendida pelo tsunami - e quase morre. A maestria do filme, aliás, está igualmente no realismo das sequências do tsunami, realmente impressionantes. De volta a casa, em Paris, Marie retoma o trabalho, mas se sente diferente. Suas motivações parecem ter perdido o sentido. Ela sente-se particularmente perturbada pelas visões que experimentou no seu estado de quase morte - quando viu vultos vindo em sua direção, numa atmosfera brilhante. Ela procura conversar sobre o assunto, mas tudo o que encontra é descrédito. E sua vida tão impecável e organizada começa a desmoronar. Em Londres, os gêmeos Marcus (George McLaren) e Jason (Frankie McLaren) são o esteio um do outro, unidos diante da séria instabilidade da mãe, uma dependente de heroína com dificuldades de abandonar o vício. Jason, especialmente, é o líder da casa. Mas o equilíbrio desaba quando ele é atropelado e Marcus deve encarar uma família adotiva temporária, enquanto a mãe vai se tratar. Em San Francisco, George Lonegan (Matt Damon, trabalhando pela segunda vez com o diretor, depois de Invictus) tem uma relação íntima e incômoda com a morte. Ele parece dotado do dom de intermediar o diálogo entre os mortos e os vivos, simplesmente segurando as mãos desses últimos. O sucesso é tanto que ele pensou em viver disso, o que seduz especialmente seu irmão, Billy (Jay Mohr). Mas George acaba desistindo de tudo, encontrando emprego como operário e procurando desesperadamente uma vida normal. Nesse terreno pantanoso, cheio de armadilhas religiosas, o diretor encontra os meios para impor seu estilo. Mostra-se menos interessado em arrancar certezas sobre a outra vida do que em extrair o máximo da verdade humana de cada um de seus personagens. Assim, pouco importa se George tem mesmo um dom - embora se deixe muito clara a malandragem explícita de uma série de falsos místicos procurados pelo menino Marcus. Também não é relevante acreditar ou não nas visões de Marie. O importante é que suas relações com esse possível além da vida mudou substancialmente sua forma de pensar e motiva novos e inquietantes sentimentos. Não há como duvidar da dor de George, solitário ao extremo, da aflição de Marcus para um contato com o irmão morto, nem da angústia de Marie por explorar suas novas percepções. Sua honestidade, assim como a do filme, são inquestionáveis. Mr. Eastwood, seja lá qual for a sua fé, se tiver uma, não quer converter ninguém, nem fazer um filme doutrinário - como aconteceu com alguns dos supersucessos espíritas brasileiros de 2010. Além da Vida é mais uma de suas obras sobre a extraordinária complexidade da vida e da infinidade de escolhas difíceis que seres humanos têm de fazer para explorar seus caminhos. E ele o faz como um mestre, com elegância e sutileza.
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