Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026

Egito persegue refugiados estrangeiros

Após queda de Mursi, xenofobia toma conta do país. Incitação da mídia contra estrangeiros tem apoio do novo regime. Os alvos são principalmente americanos, sírios e palestinos.

Terça, 16 de Julho de 2013 às 07:53, por: CdB
egito13.jpg
Os estrangeiros não têm vida fácil no Egito atualmente são vistos com desconfiança
Após queda de Mursi, xenofobia toma conta do país. Incitação da mídia contra estrangeiros tem apoio do novo regime. Os alvos são principalmente americanos, sírios e palestinos. Os estrangeiros não têm vida fácil no Egito atualmente são vistos com desconfiança ou mesmo com hostilidade por muitos egípcios, fruto de uma incitação da mídia tolerada pelo governo que substituiu a liderança de Mohammed Mursi, deposto há duas semanas pelos militares. A inimizade dos egípcios é direcionada especialmente contra os Estados Unidos. Durante manifestações no maior país árabe sejam de apoiadores islamistas da Irmandade Muçulmana que sustenta Mursi ou de seus adversários, é comum ver retratos riscados do presidente dos EUA, Barack Obama. Fotos da embaixadora dos EUA, Anne Patterson, são sobrescritas com insultos. Não há quase nenhum manifestante que fale bem dos norte-americanos. Em grandes locais públicos, também há grandes faixas com dizeres que atacam o governo dos EUA. Os adversários dos islamistas se queixam por os EUA terem tolerado as práticas da Irmandade Muçulmana por muito tempo. Do outro lado, a maior parte dos islamistas odeia os americanos porque a Casa Branca retirou o apoio a Mursi, o primeiro presidente democraticamente eleito do Egito. Muitos cidadãos parecem até obcecados com certas teorias da conspiração. O islamista Mohammed Hassen é um deles: "Tínhamos uma democracia, mas os militares não queriam democracia. Os militares foram muito pressionados pelos EUA e a Europa para derrubar Mursi porque eles têm seus próprios interesses no Egito", argumenta. Sírios com medo Mas a incitação contra refugiados sírios e palestinos tem proporções muito mais graves. Desde os primeiros confrontos violentos entre simpatizantes e opositores da Irmandade Muçulmana, estes estrangeiros foram vistos como bodes expiatórios. Autoridades de segurança afirmam que a Irmandade Muçulmana pagou aos refugiados sírios para atirarem em manifestantes anti-Mursi e militares. Os meios de comunicação públicos e privados no Egito reproduziram a informação e iniciaram uma verdadeira campanha contra sírios e palestinos. O ex-parlamentar Mostafa El-Gindi, por exemplo, propôs um procedimento especial para prender estrangeiros que supostamente atacaram ativistas anti-Mursi. Na rede privada de televisão ONTV, ele sugeriu há poucos dias que as ruas nos arredores de confrontos sejam interditadas, e que pontos de controle sejam implementados para que, assim, os "não-egípcios" sejam identificados e para que sírios e palestinos sejam executados. Esse tipo de estímulo consegue influenciar parte da população, já que, segundo observadores, a maioria dos egípcios é muito nacionalista e quase reverencia os militares. Alguns acreditam nos rumores de que os sírios foram pagos pela Irmandade Muçulmana para atacar os militares e, por isso, passaram a considerar todos os sírios como inimigos do Estado. Para os refugiados, que escaparam da violência em seu próprio país, o clima no Egito não está dos melhores, como relata Ahmed, de 27 anos. "Não posso mais me mover tão livremente quanto antes. Especialmente no centro da cidade. Fico triste cada vez que sento em um bar e ouço as pessoas falando mal dos sírios." Sem visto no país A situação é especialmente dramática porque, durante o governo Morsi, muitos sírios puderam entrar no Egito sem visto. Poucos sírios têm uma autorização oficial de residência o que, sob Mursi, não era problema. No entanto, a situação mudou completamente com o novo governo militar. Por causa do clima hostil, alguns sírios passaram a só deixar suas moradias quando é absolutamente necessário. Eles têm medo de passar por um posto de controle policial e serem enviados de volta à Síria. Além disso, uma nova lei agora obriga aos sírios a solicitarem um visto antes de entrarem no Egito. Para os sírios que querem fugir para o Egito, a entrada no país é extremamente difícil desde a introdução da nova regra. "As autoridades egípcias no aeroporto já mandaram de volta dois aviões com todos os passageiros dentro. Uma aeronave vinha de Damasco. A outra, de Beirute (Líbano)", conta Ahmed. Os passageiros não estavam cientes da nova obrigação de visto, imposta de um dia para o outro. Palestinos sob suspeita Os palestinos também não são bem-vindos no Egito atualmente. Por causa de reportagens tendenciosas veiculadas na mídia egípcia, eles são todos suspeitos de terem ligações com o Hamas, o braço palestino da Irmandade Muçulmana que governa a Faixa de Gaza, que também é acusado de ser responsável pela violência no Egito. O ex-presidente Mohammed Mursi, agora detido, também é suspeito de ter fugido da prisão durante a revolução de 2011 (que tirou o seu antecessor Hosni Mubarak do poder) com a ajuda do Hamas. De um lado, o atual regime militar usa a estratégia xenófoba para se apresentar como o salvador do país, protegendo-o de conspiradores estrangeiros. Ao mesmo tempo, consegue relativizar a violência que os próprios militares cometem e transferir a culpa a palestinos e sírios. Em terceiro lugar, consegue abalar a credibilidade dos ativistas islamistas.  
Tags:
Edições digital e impressa