Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Egito - com ou sem Corão ?

Por Rui Martins - Na luta contra o imperialismo americano, contra o neoliberalismo ou neocapitalismo não se deve subestimar o risco de parcerias ou apoios com os islamitas, que melhor organizados (como são os religiosos), poderão anular todos os avanços conseguidos em termos de respeito aos direitos humanos, aos homossexuais e às mulheres. Para nao acontecer o mesmo verificado na Argélia, em 1991, onde os marxistas da FLN subestimaram a força da Frente Islamita de Salvação.

Domingo, 07 de Julho de 2013 às 15:25, por: CdB
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Deve-se ou não lamentar a queda do presidente Morsi, no Egito ?
Amigos meus de esquerda lamentam a queda de Mohamed Morsi no Egito. Será que é mesmo para se lamentar ? O que aconteceu no Egito lembra o ocorrido em 11 de janeiro de 1992, quando o presidente argelino Chadli Bendjedid, da FLN, Frente de Libertação Nacional, decidiu suspender o segundo turno das eleições legislativas, que dariam vitória ao partido FIS, Frente Islamita de Salvação. Infiltrados pouco a pouco no governo instaurado por Ben Bella, depois da conquista da independência, em 1962, os islamitas, que pouco fizeram na luta contra a França colonizadora, já tinham exigido o reconhecimento oficial do islamismo como religão da Argélia. Pregadores islamitas expulsos do Egito por Gamal Abel Nasser foram aceitos e tolerados na Argélia pela FLN marxista e com o passar do tempo conseguirem tecer uma imensa teia religiosa envolvendo as periferias e os lugarejos pobres. Em 1991, os religiosos entraram na política com o objetivo de instaurar um governo teocrata islamita. Mal conhecidos os resultados do primeiro turno das legislativas, dando vitória esmagadora ao FIS, os líderes islamitas pediram que a sociedade argelina deixasse de lado as roupas ocidentais e que as mulheres passassem a usar a burca e o chador, o véu cobrindo a cabeça. Exigência imediatamente cumprida pela apresentadora do programa mais popular na televisão. Não era nenhum segredo, a confirmação da vitória do FIS, no segundo turno das legislativas, transformaria a Argélia num Estado teocrático regido pelo Corão com a chariá como Código Penal, a lei que manda decepar as mãos de ladrões e apedrejar até a morte (como se faz no Irã) as mulheres suspeitas de adultério. Chadli Bendjedid e a FLN decidiram suspender as eleições. Evitou-se a teocracia islamita, mas os islamitas provocaram uma guerra-civil com cerca de 100 mil mortos. Cenário parecido acaba de ocorrer no Egito. Depois da primavera árabe, desencadeada por jovens laicos, que derrubou o presidente vitalício Hosni Mubárak, apoiado pelos militares, surgiram os religiosos da Irmandade Muçulmana que se apropriaram da vitória e conseguiram eleger Mohamed Morsi como presidente. Em pouco tempo de governo, Mohamed Morsi (foto) tentou obter plenos poderes e distribuiu os cargos e governos das províncias para os islamitas da Irmandade Muçulmana. Mudanças na Constituição, até então laica, absorveram as exigências religiosas muçulmanas e o Egito caminhava para se transformar num Estado teocrático totalitário, no qual todas as conquistas conseguidas em termos de direitos humanos e em favor das mulheres seriam ignoradas. Na compreensão desse quadro, deve-se saber que a primavera árabe, movimento revolucionário na orla mediterrânea africana acabou sendo apropriada pelos religiosos islamitas, mais organizados. E aconteceu o inesperado - em lugar de uma revolução libertadora dos ditadores existentes, está havendo um retrocesso religioso, obscuro e totalitário. Entretanto, a enorme mobilização popular no Cairo, reunindo a população jovem e os não-religiosos, demonstra a rejeição do Corão e do islamismo como cartilha política e de comportamento para as populações árabes. Essa rejeição é tão forte que depois de derrubarem os militares, os mesmos jovens se recompuseram com os militares para evitar o desvio religioso. Como laico, admirador dos Iluministas e da Revolução Francesa, não lamento a interrupção de uma tentativa teocrática no Egito com todos os atrasos, retrocessos e reacionarismos que já começava a acarretar. Acho mesmo que na luta contra o imperialismo americano, contra o neoliberalismo ou neocapitalismo não se deve subestimar o risco de parcerias ou apoios com os islamitas, que melhor organizados (como são os religiosos), poderão anular todos os avanços conseguidos em termos de respeito aos direitos humanos, aos homossexuais e às mulheres. Para nao acontecer o mesmo verificado na Argélia, em 1991, onde os marxistas da FLN subestimaram a força da Frente Islamita de Salvação. Não podemos negociar nosso avanço com forças obscurantistas. E, por isso, não lamento a queda de Morsi no Egito. O Egito não é um país novo, tem uma história mais que milenar e foi dos primeiros, antes mesmo da Tunísia de Burguiba, a ser um país laico no mundo árabe. Esse aspecto, o do obscurantismo religioso (que começa a aparecer com os evangélicos no Brasil) é uma nova referência a ser anexada nas análises políticas do Magreb e do Oriente Médio. (Publicado originalmente no site Direto da Redação) Rui Martins, jornalista, escritor, correspondente em Genebra.
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