Rio de Janeiro, 17 de Setembro de 2026

Economistas vêem corte de juros apenas no 2o semestre

Quinta, 20 de Maio de 2004 às 13:17, por: CdB

A cautela mostrada pelo Banco Central ao manter os juros este mês levou economistas a prever que a Selic só voltará a ser reduzida no segundo semestre, com alguns analistas apostando que a taxa poderá até ser elevada nos próximos meses caso o cenário externo se deteriore ainda mais.

O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 16 por cento ao ano na quarta-feira, citando preocupações com a volatilidade dos mercados diante de turbulências externas. De um total de 20 analistas ouvidos pela Reuters antes da reunião, uma pequena maioria, 11, previa corte de 0,25 ponto percentual em maio.

"Eu ainda espero cortes, mas mais para o segundo semestre...O Copom deve deixar a poeira baixar um pouco e talvez cortar em agosto, mas não deve cortar muito até o final do ano, no máximo até 15 por cento", disse Marcelo Ávila, economista-chefe da consultoria Global Station, nesta quinta-feira.

Essa previsão supõe um corte da Selic de apenas 1 ponto percentual nos próximos sete meses. A última sondagem feita pelo Banco Central junto a cerca de 100 instituições financeiras mostrou que, na semana anterior ao Copom, a mediana dos analistas ouvidos apostava em que a taxa chegaria ao final do ano em 14 por cento.

A perspectiva de alta de juros nos Estado Unidos, a possibilidade de desaquecimento da economia da China e os altos preços do petróleo nos mercados internacionais estão gerando volatilidade nos mercados brasileiros.

O dólar atingiu nesta quinta-feira 3,20 reais, o maior patamar desde 11 de abril de 2003. O risco Brasil aumentou e está por volta de 760 pontos-básicos sobre os treasuries.

Para Alexsandro Agostini, economista da consultoria Global Invest, com a manutenção dos juros agora, não se pode descartar uma alta da Selic à frente caso o ambiente externo piore.

"Não há uma expectativa de corte antes de agosto, quando há uma segunda reunião do Fed (BC dos EUA)... E o Copom deixou evidente (em seu comunicado) que é possível que suba os juros se o cenário (externo) ficar pior", afirmou.

Agostini também prevê que a taxa básica de juros encerrará 2004 em 15 por cento.

O Federal Reserve reúne-se em 30 de junho e depois em 10 de agosto. Economistas norte-americanos estão prevendo uma alta dos juros nesse período.

A economista-chefe do Bes Investimentos, Sandra Utsumi, lembrou ainda que a inflação nos próximos meses irá acelerar e requerer cautela do BC, e portanto prevê que os cortes de juros devem recomeçar apenas a partir de setembro.

"Além de tudo do cenário internacional, temos a inflação de (preços) administrados no meio do ano", disse Utsumi. Em meados do ano costumam ocorrer reajustes de preços como energia elétrica e ônibus.

Ávila, da Global Invest, já elevou sua projeção para a inflação em 2004 medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de algo próximo a 6 por cento para 7 por cento.

Os economistas ouvidos já vinham reduzindo suas projeções de crescimento este ano, em meio à relutância do emprego e da renda de se recuperarem, mas algumas entidades do setor produtivo o fizeram logo após a decisão de quarta-feira do Copom.

No início do ano, a aposta dos bancos era de expansão de 3,5 a 4 por cento. Atualmente, a do economista Agostini é de 3,1 por cento.

Ávila disse que, se a Selic se mantiver em 16 por cento até o segundo semestre, ele irá revisar seu prognóstico dos atuais 3,2 por cento para 3 por cento.

O presidente da Fecomercio-SP, Abram Szajman, disse em comunicado na noite de quarta-feira que a entidade reviu sua previsão para o ano de crescimento de até 4 por cento para "no máximo 3 por cento".

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo --que desde o ano passado vem criticando a política monetária do governo-- disse, também em comunicado após o Copom, que "a postura cautelosa do Banco Central só reforça a percepção... nas condições atuais não podemos crescer muito mais de 3 por cento ao ano".

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