Economistas da FGV e do Ipea discordam sobre necessidade de juros mais altos
O Banco Central (BC) ainda terá que promover mais uma alta na taxa básica de juros (Selic) para controlar a inflação e tentar levá-la ao centro da meta, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV).
O Banco Central (BC) ainda terá que promover mais uma alta na taxa básica de juros (Selic) para controlar a inflação e tentar levá-la ao centro da meta, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). De acordo com a economista e pesquisadora da FGV Silvia Matos, os técnicos da fundação, observando os dados da inflação, constataram que as quedas no índice são sazonal e que ainda há riscos, mas há controvérsia.
–Infelizmente, diante de uma inflação de serviços muito alta - em doze meses, o país tem um acumulado de quase 9% no setor de serviços, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA -15) - entendemos que o Banco Central terá que puxar para cima mais um pouquinho a taxa de juros. A nossa percepção é que haverá necessidade de uma alta em agosto de mais 0,25 ponto percentual – disse Silvia a jornalistas.
Contraponto
Para o coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Messenberg, atividade econômica, mercado de trabalho, crédito e preço de commodities estão sob controle, deram trégua à inflação e não justificam mais aumento de juros pelo Banco Central. Só há um elemento fora de controle, as expectativas do 'mercado', que tem produzido avaliações descoladas do mundo real para manter o juro alto.
– Talvez seja hora de o BC jogar mais duro – acredita Messenberg.
A atividade econômica está menos veloz, o mercado de trabalho segue aquecido mas em ritmo moderado, o avanço do crédito desacelerou, o preço dos alimentos e dos combustíveis parou de subir. Não por acaso, os últimos índices de inflação mostram perda de força. Por tudo isso, o Banco Central (BC) não tinha motivo para elevar a taxa de juros na noite passada, como de fato ocorreu. Só um elemento justifica o conservadorismo. A visão do “mercado”, que ignora dados reais e mantém expectativas de inflação mais pessimistas.
A avaliação é do economista Roberto Messenberg, coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ele é responsável por um boletim trimestral do Ipea que analisa a conjuntura econômica cuja edição mais recente foi divulgada nesta quarta-feira, poucas horas antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC.
– Do ponto de vista das variáveis reais, não há motivo para aumentar a taxa de juros. Só há um senão: o Banco Central não opera de forma completamente isolada do mercado financeiro, que consegue exercer força e pressão com suas expectativas. Esta é a única variável que não foi controlada ainda – afirmou Messenberg.
Pesquisa
O “mercado” a que se refere o economista se expressa toda semana por meio de uma pesquisa feita pelo BC sobre juros e inflação com cerca de 100 instituições, a maioria ligada ao sistema financeiro. O levantamento divulgado segunda-feira mostra que o “mercado” continua mantendo para o ano que vem uma previsão de inflação superior à meta que o BC diz perseguir.
O debate sobre a inflação de 2012 tornou-se importante desde que o BC avisou que não trabalharia para atingir a meta de 4,5% em 2011, mas só em 2012. Depois dessa decisão, o “mercado”, que antes projetava uma inflação até 4,5% no ano que vem, passou a prever mais – a última estimativa é de 5,2%.
Para Messenberg, a inflação sob controle em 2011 mostra que o Banco Central acertou todos os diagnósticos feitos este ano sobre o controle da inflação, construiu credibilidade com isso e, agora, deveria “ir contra o mercado financeiro”.
Segundo o economista, o mercado continua enfrentando o BC e produzindo prognósticos diferentes por vício e interesse.
– O mercado se acostumou a uma administração de política monetária que está completamente obsoleta no mundo inteiro. A realidade mudou, o mundo se complicou, não existe mais só o instrumento da taxa de juros contra a inflação. Mas quando a taxa se eleva, o mercado ganha dinheiro e quem sofre são outros atores – disse.
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