Rio de Janeiro, 29 de Outubro de 2026

É veríssimo, a imprensa brasileira é de direita

Segunda, 19 de Novembro de 2007 às 12:20, por: CdB

Fiquei satisfeito com a tomada de posição em São Paulo, do Luis Fernando Veríssimo, no Salão dos jornalistas escritores, dizendo que a imprensa brasileira de hoje é de direita.

Não foi o primeiro a dizer isso, mas, com seu peso e em alta voz, é um dos primeiros. É verdade, compomos hoje uma reduzida minoria, entrincheirada em alguns bolsões da mídia brasileira, onde alguns abnegados disparam e-mails que circulam entre blogs, sem causar grandes preocupações na grande imprensa.

A esquerda não tem acesso aos grande jornais, às rádios e à televisão brasileiros. Enquanto isso, a direita dispõe seus canhões voltados para Brasília com o objetivo – ainda sem sucesso – de indispor o povo com o governo. O resto não interessa.

Veríssimo falou que, no passado, ou seja, há coisa de 40 anos, a maioria dos jornalistas era de esquerda, ou seja, optava por bandeiras sociais de defesa da população e reunia toda gama do pensamento de esquerda, desde os cristãos progressistas aos comunistas e trotskistas.

Esses jornalistas não podiam escrever claramente suas idéias, mas sua simples presença impedia o descaramento da direita pura e dura, como é hoje o caso da Veja. Se atualmente não existe nenhum órgão de esquerda, tirando-se as pequenas tiragens do que se chamava e ainda se pode chamar de jornalismo nanico, havia no passado, nada distante, secretários e diretores de jornais que faziam barragem ao diktat dos detentores do stablishement.

Samuel Wainer, criador da Última Hora, populista de esquerda; Cláudio Abramo, dirigindo o Estadão e depois a Folha; Mino Carta denunciando a ditadura militar e forçando a abertura, enquanto o grupo dos jornalistas da Realidade, como ficaram conhecidos, lançava as bases de um jornalismo sério, de pesquisa e de preocupação social. Sérgio de Souza, Hamiltinho estão hoje na barricada da Caros Amigos mas seu público leitor é reduzido, o isolamento levou a um radicalismo e vice-versa.

Os jornalistas perderam sua segurança no emprego, essa também uma das razões pela direitização da profissão. A mídia empresa descobriu como aviltar a classe, seja explorando a vaidade de alguns, seja amedrontando a maioria com o desemprego.

Fazer-se notar como dissidente é demissão certa. Os baixos salários, mantidos pela troca constante dos mais velhos por estagiários e recém-formados, forçando quem tem experiência a se tornar assessor de imprensa agravou o quadro.

A expressão “jornalista independente” que poderia designar um jornalismo maduro e seguro é a demonstração de sua fraqueza – os jornalistas independentes, pagando como autônomos suas contribuições para a aposentadoria, arcando com seus seguros-saúde, sem garantias, não passam de frilas, ou estressados obrigados a aceitar qualquer pagamento por suas matérias.

Os grandes jornais não têm mais correspondentes fixos e se abastecem, quando algum fato exige, com reportagens enviadas por frilas internacionais ou, no máximo pelos chamados frilas fixos, cuja estabilidade depende das equipes que se sucedem nas redações centrais. Ganhar muito é arriscado, chama a atenção em todo plano de economia previsto pelo jornal.

A mídia estatal estrangeira, subvencionada por departamentos de propaganda, virou concorrente, fornece áudios, textos escritos e banners, tudo de graça, num dumping desleal ao trabalho dos correspondentes impossível de se afrontar.

Nem depois da guerra, nossa imprensa, que saía da ditadura e da censura, demonstrou tanta debilidade, servileza e falta de orgulho como agora, quando aceita sem perguntar por que tanta gentileza. Uma servilidade que grandes jornais e rádios comerciais poderiam evitar mas não evitam.

Nunca irei esquecer a frase do hoje ícone do jornalismo Heródoto Barbeiro, contada no meu livro sobre Maluf, quando tentava convencê-lo a me readmitir, no fim dos anos 90 : “por que vou te pagar como correspondentem se a RFI me dá tudo de graça ?” Ou da diretora do Sistema Globo

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