Rio de Janeiro, 05 de Fevereiro de 2026

E nos movimentos sociais e ongues, o que se vê?

Flávio Aguiar: Muitos movimentos sociais e ongues têm um olhar unidimensional que tira a abrangência das coisas. Tudo bem que se defenda o bagre, mas que não se esqueça do camarão, nem dos comedores de ambos e de outras coisas que não dependem apenas deles. (Leia Mais)

Domingo, 15 de Julho de 2007 às 08:17, por: CdB

Escrevi na semana passada dois artigos nesta coluna, um focalizando a presença do governo Lula no plano internacional e outro no plano nacional, além de focalizar reações a seu governo, e ao seu partido, o PT, em ambos os planos. Em ambos os casos, defendi a tese de que ambos, governo e partido, continuam sendo referências “à” esquerda nos dois planos, em que pesem as lacunas, as hesitações e a política econômica mais conservadora do que deveria (ou mesmo poderia) ser. Os dois artigos poderiam entrar num capítulo de uma coletânea como “A polêmica das preposições”, pois uma boa parte da discussão passei explicando e justificando a diferença e a pertinência da distinção entre o “de” e o “à”, pois é meu pensamento que o governo Lula fez o Estado brasileiro caminhar vários graus “à” esquerda. Isto não é de pouca monta, dado o tamanho do Leviatã, e o fato de que, com a burguesia ávida que temos, ele continua sendo, com toda a nossa tradição autoritária, um campo de garantias constitucionais mínimas em ação para os mais pobres no exercício e conquista da consciência da cidadania, isto é, a aquisição do conceito de que não se tem direitos como se tem direito a ter direitos.

Em todo caso, muitas das críticas mais acerbas contra o governo Lula partem de ongues e de movimentos sociais, que reclamam da falta de atenção para com suas reivindicações, quando não o acusam diretamente de fazer apenas o jogo dos bancos e das grandes corporações, como também fazem os partidos que procuram reivindicar para si uma posição mais à esquerda no espectro político.

Entretanto faz tempo que venho observando que, muitas das palavras de ordem e das manifestações nesse campo (o das ongues e movimentos) assumem uma particularidade que é alvo de críticas também nos partidos. Com respeito a estes últimos ouve-se com freqüência a crítica de que abdicaram da luta ideológica (especialmente o PT) e se converteram em versões novas dos velhos partidos da vida brasileira, espaço de disputas apenas eleitorais quando não eleitoreiras. Paira sobre eles a acusação de que, como dizia o infeliz Coronel Tamarindo na retirada da Terceira Expedição para Canudos, “em tempo de murici, cada um cuida de si”, versão sertaneja do famoso “farinha pouca, meu pirão primeiro!”.

Esta fragmentação do espaço partidário é uma extensão da fragmentação do espaço político como um todo, recortado em bandos ou facções destinadas antes de tudo a manter o equilíbrio e a estabilidade convenientes às políticas econômicas liberais ortodoxas ou neo-ortodoxas que fizeram do Estado não algo mínimo, mas algo máximo no sentido de desregulamentar direitos e distribuir, como antigamente, prebendas e sinecuras, só que não aos amigos do rei, mas aos cultores do novo Moloch devorador de criancinhas, a ciranda do capital financeiro.

Mas com as ongues e os movimentos sociais, embora procurem ou pelo menos devessem se pautar pela independência de todo o qualquer Estado, vem acontecendo algo parecido. Há uma tendência a cada uma ou cada um cuidar do seu pedaço, como se ele fosse um “nicho” mais ou menos analogamente aos “nichos de mercado”, ou também os “nichos políticos”, onde se abrigam tendências e correntes partidárias, que passam a preferir acomodar-se nos cantões e secretarias que conquistam no acordão do que disputar a hegemonia ideológica, mesmo sem vencer a disputa interna.

Cria-se na práxis de ongues e movimentos um olhar unidimensional, que vai se despovoando de profundidade e de abrangência. Embora no nível retórico se mantenha a propalada necessidade de uma visão holística e estratégica, abrangente e totalizante, a práxis leva apenas à consideração de seu leitmotiv, de sua “razão social” que lhe dá o nome, a razão de ser e a condição de sobrevivência. Não estou fazendo coro, quero deixar claro, com esses ataques que tem povoado páginas e editoriais da imprensa conservadora clamando por que se faça uma “devassa” na “farra” das ongues e dos movimentos,

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