Rio de Janeiro, 21 de Setembro de 2026

Dublin centraliza atenções no centenário do Bloomsday

Quarta, 16 de Junho de 2004 às 10:58, por: CdB

O escritor irlandês James Joyce afirmou certa vez que, se Dublin algum dia fosse destruída, ela poderia ser reconstruída a partir das páginas de "Ulysses", seu romance épico que, na quarta-feira, será lembrado em toda a cidade.

O livro mapeia os movimentos do herói atípico Leopold Bloom enquanto ele percorre Dublin no dia 16 de junho de 1904, data batizada de "Bloomsday" e cujo centenário será comemorado na quarta-feira.

James Joyce estava no exílio auto-imposto quando escreveu sua obra-prima -- para muitos, o maior romance da língua inglesa -- e fez uso de um guia de ruas de Dublin para garantir a precisão dos locais descritos.

Entretanto, embora a maioria dos bancos, igrejas, pubs e edifícios públicos descritos no livro continue em pé, Dublin passou por mudanças dramáticas nos últimos 100 anos, tendo sido atingida pela violência política, guerra civil e, mais recentemente, um desenvolvimento acelerado provocado pelo boom econômico da Irlanda, o "tigre celta".

Frank McDonald, autor de vários livros sobre o planejamento e a arquitetura de Dublin, disse que a cidade descrita por Joyce mudou radicalmente desde então.

"O que temos hoje é um centro em estilo europeu cercado por subúrbios em estilo americano", explicou. "A Dublin de Joyce era uma cidade muito menor e mais íntima."

Nesta quarta, muitos dos milhares de fãs de James Joyce reunidos em Dublin para comemorar o centenário do Bloomsday vão partir para seguir os passos de Bloom, passando por todos os pontos de referência descritos em "Ulysses".

Eles vão descobrir que a loja de departamentos Brown Thomas, em cuja vitrine Bloom admira "cascatas de fita" e "delicadas sedas da China", deu lugar à loja britânica Marks & Spencer.

A loja Thornton's, na mesma rua, onde Blazes Boylan, o amante da mulher de Bloom, compra vinho do Porto, frutas e carne enlatada para ela, agora faz parte da rede varejista irlandesa Dunnes Stores.

O Clarence Hotel, pelo qual Bloom passa em sua jornada, foi comprado e reformado na década passada pelo grupo de rock irlandês U2 e hoje é reduto dos jovens profissionais endinheirados da cidade.

A casa de número 7 na Eccles Street, residência de Bloom no livro, não existe mais, nem tampouco a redação do jornal "Freeman's Journal", à qual Bloom faz uma visita breve de trabalho.

Mas o açougue Olhausen's, onde Bloom compra pés de porco, e a farmácia Sweny's, onda compra sabonete de limão para sua mulher, continuam em atividade.

Muitas das residências georgianas grandiosas da época de Joyce passaram a ser malvistas pelos planejadores urbanos de Dublin, que as enxergavam como lembretes do governo colonial britânico.

A Câmara de Vereadores de Dublin continua a tomar decisões polêmicas, uma das quais, mais recente, foi aprovar a demolição do Ormond Hotel, à beira do rio, onde Bloom saboreia "os órgãos internos de animais e aves".

Outros aspectos da Dublin de James Joyce que já tinham deixado de existir estão voltando a aparecer. Os bondes, nos quais Bloom se locomove em seu dia, vão começar a correr outra vez na capital irlandesa este ano, depois de 55 anos de ausência.

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