O que parecia ser uma ilha de prosperidade no mar revolto do capitalismo internacional, no último ano, tornou-se um pesadelo para investidores e economistas que, nesta sexta-feira, começam a avaliar com mais clareza o default da dívida de mais de R$ 80 bilhões no emirado árabe de Dubai. O abalo nos mercados financeiros provocado pela proposta do pequeno país no Golfo Pérsico de adiar os pagamentos, no entanto, é passageiro e não terá maiores consequências para o Brasil, segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
– Acho que não vai pegar. Isso (o medo de calote) mexeu um pouco com os mercados, mas acho que aqui não vai ter maiores consequências – disse o ministro a jornalistas, após participar de evento com banqueiros.
Com ele concorda o presidente-executivo do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, que também não acredita em maiores reflexos de Dubai sobre o Brasil.
– Foi até melhor que essas notícias vieram num dia de feriado nos Estados Unidos (Dia de Ação de Graças). Assim dá tempo de os investidores pensarem melhor – disse Trabuco, ao considerar que não há exposição de bancos brasileiros naquele mercado.
Reação negativa
As bolsas da valores da Ásia fecharam em queda nesta sexta-feira, atingidas pelas ondas de choque geradas pela crise da dívida de Dubai. Preocupações sobre a situação do país derrubaram ações de bancos e impulsionaram o iene para maior nível em 14 anos contra o dólar. Os futuros de bolsas dos Estados Unidos desabavam cerca de 3%, sinalizando um dia duro para Wall Street, que ficou fechada na quinta-feira pelo feriado do de Ação de Graças.
A crise em Dubai aumentou preocupações de investidores sobre calotes que podem atingir a economia global em um momento em que ela está tentando se recuperar da crise financeira internacional.
O índice MSCI que reúne mercados da região Ásia-Pacífico com exceção do Japão desmoronava 3,81% às 7h36 (horário de Brasília). A bolsa de Tóquio fechou com tombo de 3,22%, a 9.081 pontos, no menor nível em quatro meses. O mercado ficou sob pressão adicional gerada pela valorização do iene ao maior patamar em 14 anos contra o dólar, o que pesou sobre ações de companhias exportadoras.
A alta do iene ainda alimenta preocupações de que a economia do Japão vai voltar a um quadro de recessão, o que obrigou o governo a disparar o mais forte sinal até agora de que está considerando intervir para enfraquecer a moeda. O banco central japonês está pedindo a vários bancos, locais e estrangeiros, cotações que estão sendo usadas na compra de dólares.
As ações de bancos ficaram entre as mais atingidas na região por conta da preocupação com a potencial exposição a bilhões de dólares da dívida de Dubai. O HSBC afundou 7,59% em Hong Kong depois que suas ações fecharam em baixa de 4,8% em Londres durante a noite. O Standard Chartered desabou 8,62%, após tombo de 6% em Londres. O maior banco do Japão, Mitsubishi UFJ Financial Group perdeu 2,2%.
A Dubai World, o conglomerado que liderou o crescimento acelerado do emirado, tinha cerca de US$ 59 bilhões em compromissos de dívida até agosto.
Do sonho ao pesadelo
Até poucas horas atrás, a palavra Dubai parecia evocar um milagre econômico. A mais conhecida das sete monarquias que formaram os Emirados Árabes Unidos no início dos anos 1970, Dubai parecia congregar o melhor de vários mundos. Um país pequeno (83 mil quilômetros quadrados), com pouca gente (4,7 milhões de pessoas) e com um subsolo riquíssimo em petróleo, Dubai parecia fadado a ser mais uma das ditaduras árabes em que uma minoria usufrui dos petrodólares e a massa da população vive na miséria das tendas. Esse script, porém, não valeu.
Os Emirados não apenas atingiram um elevado padrão de vida como também conseguiram algo raro para um país árabe. Sua economia reduziu a dependência do petróleo. As faraônicas construções não são palácios reais, mas hotéis e sedes de bancos.
Mais do que tijolos e concreto, Dubai conseguiu firmar-se como um centro financeiro regional, ao oferecer um ambiente favorável aos negócios e uma sociedade islâmica aberta. Por isso a forte repercussão da notícia que circulou nesta madrugada, de que a holding Dubai World estava tentando postergar o pagamento dos 59 bilhões de dólares em dívidas.
Com cerca de US$ 80 bilhões em ativos, a Dubai World é o veículo de investimentos do governo do emirado que permite aos investidores internacionais participar, por exemplo, da construção de hotéis, resorts e marinas às margens do Golfo Pérsico. Julgava-se que as reservas em moeda forte de Dubai tornavam sua economia tão sólida quanto seus hotéis.
Financiar essas construções requer muito capital, dinheiro grosso até mesmo para um país rico em petróleo. Por isso o pesado endividamento do Dubai World, que financiou alguns dos mais suntuosos hotéis do mundo por meio da emissão de títulos no mercado internacional.
A empresa atravessou bem os piores momentos da crise graças às suas abundantes reservas em moeda forte e à recuperação recente dos preços do petróleo. No entanto, a retração econômica drenou recursos e desviou investimentos dos países emergentes, o que mostrou-se pesado para o Dubai World.
O impacto sobre o Brasil deverá ser pequeno. Além de as duas economias serem pouco conectadas, os investidores brasileiros ainda não descobriram o mercado islâmico. Ao contrário, as incursões dos bancos brasileiros no Oriente Médio são muito mais para buscar dinheiro do que para investir. Mesmo assim, é essencial falar de Dubai.
Riscos permanecem
A súbita inadimplência de um participante do mercado financeiro tido como inabalável mostra que os riscos da crise ainda estão longe de acabar. Demorou, mas a desvalorização dos imóveis e a retração dos mercados vergaram o Dubai World. Novos casos podem ocorrer, e, principalmente, podem ser gerados pelas condições atuais.
Já se discutiu à exaustão como os pacotes de ajuda governamentais injetaram trilhões de dólares em uma economia global sem demanda. Um dos efeitos colaterais negativos dessas políticas é a possibilidade de captar dinheiro barato para financiar qualquer iniciativa.
Em um artigo recente, Bill Gross, diretor do fundo norte-americano Pimco, o maior do mundo, lembrou que alguns fundos estão oferecendo um rendimento líquido de 0,01% ao ano. Nesse passo, um investidor demoraria 6.932 anos para dobrar seu capital, diz Gross.
Poucos têm tanta paciência ou tanto tempo –entre os patriarcas bíblicos, nem mesmo Matusalém chegou aos mil anos de idade– o que estimula uma busca pelo risco. Com dinheiro abundante e barato, aumenta a possibilidade de geração de novas bolhas especulativas rapidamente.
Os juros baixos nas principais economias podem acentuar surtos incontroláveis de alavancagem, com consequências imprevisíveis. Ou seja, cumpre estar atento às lições que Dubai pode nos ensinar.
Fora da crise
Os bancos da França informaram, nesta sexta-feira, terem exposição limitada à crise de dívida de Dubai. O Natixis afirmou ter exposição de cerca de US$ 50 milhões à dívida em espera da Dubai World, além de uma exposição direta "extremamente baixa" ao setor imobiliário de Dubai.
O Société Générale disse que sua exposição ao Dubai World é "limitada", enquanto o BNP Paribas afirmou que o banco não tem exposição à bolha estatal de Dubai. O Dexia divulgou ter uma exposição limitada ao DP World e o Calyon informou que a sua exposição ao Dubai World é "muito baixa". As ações de BNP Paribas, Société Générale, Crédit Agricole reverteram perdas e passaram a subir após os comentários.
Na Itália, o diretor-geral do Banco Central, Fabrizio Saccomanni, disse nesta sexta-feira que os bancos do país têm uma exposição "muito limitada" ao Dubai World e não vê problemas para eles. O diretor do Consob, órgão regulador do mercado de ações, Lamberto Cardia, afirmou, separadamente, que a entidade está estudando a situação, mas que "no momento, estamos totalmente calmos".