Rio de Janeiro, 04 de Outubro de 2026

DRAMATIZAÇÕES VIOLENTAS, O MAL DO SÉCULO

Domingo, 24 de Julho de 2011 às 04:57, por: CdB

Por Fábio de Oliveira Ribeiro 24/07/2011 às 10:34

Vivemos num mundo doente - diz uma música. Doente e muito armado.

Domingo o portal do IG estampa duas notícias semelhantes:

 http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/noruega+faz+operacao+policial+em+oslo+relacionada+a+massacre/n1597097421589.html

 http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/homem+dispara+em+festa+de+aniversario+nos+eua/n1597097335680.html

Apesar do norueguês ter agido de maneira fria, premeditada e por razões políticas e o norte-americano aparentemente ter feito disparos sob violenta emoção, as semelhanças entre os dois casos são evidentes. Em ambos casos os atiradores vivem em países desenvolvidos e tiveram acesso facilitado a armas de fogo e munição. A eficiência letal dos disparos que foram, feitos indica que eles sabiam atirar bem ou muito bem.

A moderna psicologia defende a tese de que não existem homens intrinsecamente bons ou maus. O que existe é o contexto, que pode ser virtuoso ou vicioso:

"O contexto deve ser encarado como uma característica complexa e estruturada das habilidades psicológicas, característica que não está desconectada da habilidade do indivíduo (Rogoff, 1982)."  http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1414-98931987000200012&script=sci_arttext

A tragédia, portanto, não está no homem mas no contexto em que ele atua. É preciso tentar entender o contexto em que ocorreram as duas tragédias sem cair no lugar comum. Dizer que os atiradores em questão são loucos não explica seus atos violentos, muito pelo contrário pode esconder o principal.

Hannah Arendt afirma que:

"A violência, sendo instrumental por natureza, é racional à medida que é eficaz em alcançar o fim que deve justificá-la. e posto que, quando agimos, nunca sabemos com certeza quais serão as consequencias finais do que estamos fazendo,a violência só pode permanecer racional se almeja objetivos a curto prazo. Ela não promove causas, nem a história, nem a revolução, nem o progresso, nem o retrocesso; mas pode servir para dramatizar queixas e trazê-las à atenção pública." (SOBRE A VIOLÊNCIA, Civilização Brasileira, 2009, p. 99).

Um pouco mais adiante a grande pensadora assegura que:

"...quanto maior é a burocratização da vida pública, maior será a atração pela violência. Em uma burocracia plenamente desenvolvida não há ninguém a quem se possa inquirir, a quem se possam apresentar queixas, sobre quem exercer as pressões do poder. A burocracia é a forma de governo na qual todas as pessoas estão privadas da liberdade política, do poder de agir; pois o domínio de Ninguém não é u não-domínio, e onde todos são igualmente impotentes temos uma tirania sem tirano."

Apesar de estar se referindo à violência do movimento estudantil, Hannah Arendt nos dá uma pista importante para tentar entender o que ocorreu nos dois casos.

Conforme foi noticiado, o autor dos disparos na Noruega divulgou na Internet um manifesto com milhares de páginas, mas suas palavras (que podem ser entendidas como suas queixas para fins arendtianos) não encontraram eco. Ninguém lhe deu atenção. Dramatizando suas queixas através de um ato extremamente violento, o norueguês conseguiu a atenção que desejava. Em razão dele ter produzido dezenas de cadáveres, o seu manifesto - não vou entrar aqui no mérito do que eventualmente ele tenha dito, até porque não li o texto - terá que ser lido pelas autoridades de segurança (à procura de pistas sobre como agir no futuro para evitar ataques semelhantes) e pelo público em geral (por curiosidade mórbida).

A tragédia familiar do norte-americano é menos eloquente, mas também pode ser entendida com as ferramentas criadas por Hannah Arendt. Suas queixas familiares não foram atendidas, ele acreditava que não tinha ninguém a quem recorrer e então agiu de maneira violenta. O resultado de sua dramatização, entretanto, provocou a destruição de qualquer possibilidade dele ser atendido. Ao contrário do norueguês o norte-americano suicidou-se.

A intolerância é o elo mais evidente que liga estes dois homens. Um disse à polícia que não tolera organizações de esquerda e militantes de esquerda. O outro demonstrou numa festa que não tolerava mais reclamações familiares. O que eles mesmos diriam ou fariam se fossem as vítimas de dramatizações violentas das outras pessoas?

Os dois episódios indicam que, além dos meios necessários, seus protagonistas tinham uma necessidade incontrolável de purificar e destruir. O primeiro quer purificar a Noruega mediante a destruição física dos militantes de esquerda. O segundo queria purificar sua família usando uma arma de fogo.

Ainda sobre a violência, Jacques Sémelin afirma que:

"A noção de embriaguez, aliás, tem aqui um sentido bem mais amplo que o do simples abuso do álcool ou mesmo de drogas, que os matadores podem consumir antes, durante e depois da passagem ao ato. A embriaguez é também da própria violência, pela qual o executor experimenta uma sensação de onipotência, podendo distribuir a morte sem restrições. A passagem ao ato, uma vez estabelecida, sempre recomeçada, parece induzir formas compulsivas de comportamento, próximas da toxicomania. Há um verdadeiro arrebatamento, ao mesmo tempo perverso e magnetizante, em poder assim agir sobre os corpos, sobre a vida e sobre a morte: causar sofrimento, humilhar, torturar, gozar, cortar, matar e de novo matar para, em seguida recomeçar." (PURIFICAR E DESTRUIR, Jacques Sémelin, Difel, 2009, p. 412)

Semélin refere-se à dinâmica do massacre num contexto de conflito armado, em que "causar sofrimento, humilhar, torturar, gozar, cortar, matar e de novo matar para, em seguida recomeçar" se torna uma realidade cotidiana. Nas duas tragédias noticiadas os autores dos disparos não estavam em guerra (vocábulo que pressupõe um conflito armado entre tribos ou nações, entre exércitos ou milícias), mesmo assim eles se comportaram como se estivessem em guerra.

A guerra é um fenômeno coletivo, mas depende de atos individuais de violência extrema como aqueles que o norueguês e o norte-americano praticaram. Portanto, a embriaguez da própria violência pode ser um componente adicional das tragédias. Nos dois casos, a dramatização violenta da queixa (Arendt) pode ter se tornado mais sedutora no momento em que eles começaram a agir (Semélin).

A burocratização das sociedades modernas é um fato irreversível e continuará provocando dramatizações violentas como as que foram noticiadas. O que pode ser feito? Limitar a letalidade destas dramatizações mediante a proibição da comercialização e porte de armas de fogo é uma medida eficaz que pode e deve ser estudada.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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