Rio de Janeiro, 03 de Abril de 2026

Documentário retrata vida de uma mulher no lixão do Rio

Sexta, 28 de Julho de 2006 às 06:21, por: CdB

O fotógrafo carioca Marcos Prado se dedicava havia seis anos a documentar em fotos o cotidiano do lixão do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ), quando conheceu uma personagem especial, que acabou virando a protagonista de seu longa de estréia como diretor, o documentário Estamira.

O filme, que leva o nome da mulher, estréia na sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O documentário correu o mundo, obtendo 25 prêmios em festivais nacionais, como a Mostra Internacional de São Paulo e o Festival do Rio, e internacionais, como os festivais de Marselha, Karlovy Vary (República Tcheca), Havana, Viena, Londres e Miami.

Sócio do cineasta carioca José Padilha na produtora Zazen, Prado já havia produzido os filmes Carvoeiros (2000), de Nigel Noble, e o premiado Ônibus 174 (2002), de Padilha.

Mas nada havia preparado o fotógrafo para o encontro com Estamira, uma mulher com distúrbios mentais, que os próprios amigos, moradores do lixão, descreviam como "a bruxa de Gramacho", devido aos seus longos e calorosos discursos, em uma linguagem toda própria.

É visível, pelo filme, que é muito grande a relação de confiança entre o diretor e a retratada. Estamira é acompanhada desde o início de seu dia, quando sai de sua casa, em Campo Grande, de madrugada, em um longo trajeto, primeiro de ônibus, depois a pé, em direção ao lixão de Jardim Gramacho - um gigantesco complexo onde são depositadas diariamente 9 mil  toneladas de lixo, segundo o diretor do filme.

Chegando ao lixão, ela junta-se a um grupo, que inclui velhos, mulheres e eventualmente até crianças, que procuram obter objetos e até alimentos em estado razoável no meio do lixo - não raro, disputando o espaço com urubus.

O filme escapa do risco de ser depressivo demais ao evidenciar a relação de solidariedade que se forma entre Estamira e os demais trabalhadores do lixão, alguns dos quais ela cuida e alimenta.

O ponto mais delicado do longa é o que mostra a tensa relação de Estamira com seus três filhos - dois dos quais já a internaram em um hospital psiquiátrico, um fato que ela não esquece ou perdoa.

Mas é justamente através do depoimento destes filhos que é possível reconstituir o passado de Estamira, que já foi uma mulher bonita, casada e com uma casa confortável, o que se vê por sua fotos antigas.

De todo modo, o filme já mudou a vida de Estamira. Ela já não vai mais ao lixão e está, voluntariamente, submetendo-se a tratamento médico. O diretor dá-lhe uma mesada e está construindo uma casa para ela.

O cinema continua na pauta do novo diretor. Seu próximo trabalho é a produção do filme Tropa de Elite, ficção que será dirigida por José Padilha. O enredo é sobre rapazes que entram para o temido Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

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