Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Documentário mostra o horror da ditadura argentina

Quinta, 26 de Fevereiro de 2004 às 08:22, por: CdB

Uma mulher jovem conta ao tribunal como deu à luz, sem nenhuma ajuda, no assento traseiro de um carro em movimento, e diante da gozação de seus torturadores. A voz é o suficiente para mostrar o horror que se apoderou da Argentina na década de 70.

A declaração inicia a série de depoimentos que, junto com imagens de arquivo e entrevistas, compõem "El Nuremberg Argentino" (O Nuremberg Argentino), documentário sobre o histórico julgamento à cúpula do governo militar entre 1976 e 1983. O filme estréia nesta sexta-feira, 26 de fevereiro, em Buenos Aires.

Uma co-produção argentina e espanhola, o filme mostra o julgamento dos rostos mais visíveis da ditadura, como Rafael Videla, Eduardo Masera e Leopoldo Galtieri, realizado entre abril e dezembro de 1985.

Em 80 minutos de filme, são mostrados o medo e a dor dos sequestrados e a impunidade e o poder dos ditadores.

"O público se surpreende com a perversão da tortura, porque foi como o holocausto judeu (...) Foi tortura psicológica e tortura física, disse à Reuters o diretor Miguel Rodríguez Arias.
Após o retorno à democracia, em 1983, foram sancionadas leis de anistia protegendo a maior parte dos repressores que cumpriram as ordens da cúpula.

Muitos dos militares condenados no julgamento de 1985 foram absolvidos posteriormente por indulto do ex-presidente Carlos Menem (1989-1999).

No entanto, o julgamento é considerado único na história da América Latina --onde vários países foram governados por ditaduras--já que foi a primeira vez que o poder civil julgou os militares que tomaram o poder à força.

"Eu tive a oportunidade de ir várias vezes ao julgamento e havia uma coisa que me emocionava: eu gostava de ver os assassinos da minha filha terem de se levantar diante do poder civil que é a Justiça", afirmou Carmem Lapacó, 78 anos, integrante do grupo das Mães da Praça de Maio. A filha dela, estudante de antropologia, foi sequestrada aos 19 anos.

Assistindo ao filme, Lapacó voltou a se comover com os depoimentos que revelaram a crueldade das sessões de tortura e o fascínio dos sequestradores pelo nazismo. Eles mostram também uma tortura psicológica e "refinada", que inclui saídas noturnas por Buenos Aires quando as vitimas eram obrigadas a ir a restaurantes com os sequestradores ou festejar as vitórias da seleção nacional de futebol na Copa do Mundo de 78.

O documentário já foi exibido em festivais internacionais e estreará em dezembro na Espanha.
Na Argentina, o filme estréia menos de um mês antes do 24 de março, aniversário de 28 anos do início da ditadura. Durante o regime, entre 9 mil e 30 mil pessoas desapareceram. Na data, o presidente argentino, Néstor Kirchner, anunciará publicamente um plano para instalar um museu onde funcionou um dos maiores centros de detenção ilegal, a Escola Mecânica de Armada.

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