Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Do paradigma mercantil-produtivista ao civilizatório

Quarta, 08 de Dezembro de 2004 às 09:13, por: CdB

Se a reforma agrária quer construir hoje a sua audiência e legitimidade através da língua democrática na cena mundial, ela tem que conseguir responder à pergunta : qual é mesmo a sua atualidade nestes inícios do século 21? Nas exposições e nos debates travados no Fórum Mundial que se realiza em Valência, Espanha, a resposta a esta pergunta fundamental vem sendo tecida.

Na linguagem dos revolucionários no século 20, a necessidade da reforma agrária foi muitas vezes formulada como o resgate de uma dívida republicana básica para povos da periferia do mundo capitalista ainda imersos em modos de produção arcaicos ou pré-capitalistas. Em outras oportunidades, a funcionalidade da reforma agrária foi defendida como modo de compatibilizar estruturas agrícolas atrasadas às necessidades do desenvolvimento capitalista industrial. Em certos países, enfim, ela foi apresentada como um caminho necessário para reconstruir os pactos políticos indispensáveis a processos de reconstrução nacional.

Mas, em geral, o caminho para o desenvolvimento e para o futuro apontava a sociedade urbano-industrial como referência. O mundo agrário, concebido como o lugar do atrasado, do tradicional, deveria ser subsidiário ou funcional ao processo da construção dos modernos paradigmas urbanos de civilização. À esquerda, ao centro ou no discurso liberal, uma certa concepção produtivista aliava-se à noção de progresso para retirar do centro da agenda tudo que dizia respeito aos mundos agrários remanescentes.

Decerto, os relógios da história não eram sincrônicos, isto é, havia uma defasagem visível entre o mundo agrário dos países do centro capitalista e aqueles da periferia ou da semi-periferia. Estes podiam, inclusive, combinar em suas próprias estruturas diferentes temporalidades de desenvolvimento. Mas o relógio da História apontava inexoravelmente para o declínio progressivo do mundo agrário, cada vez mais retido funcionalmente nas redes tecno-científicas comandadas desde os núcleos urbanos centrais da civilização.

Assim, a grande novidade do Fórum Mundial da Reforma Agrária pode ser compreendida como o questionamento das próprias bases desta lógica civilizacional e desta concepção de história. É como se o mundo dos camponeses, trabalhadores e pauperizados do campo, que perfazem cerca de três bilhões de seres humanos, para defender os direitos básicos à sua dignidade tivessem que colocar em questão o próprio sentido de uma ordem que lhes ameaça retirar a identidade e qualquer sentido de futuro.

A lógica mercantil-produtivista

Para desenvolver o argumento de como a demanda de reforma agrária na cena contemporânea se instala questionando as racionalidades da ordem dominante, seria necessário aclarar as lógicas que a presidem. Esta aclaração, no entanto, não requer uma imaginação especulativa porque a própria história recente das duas últimas décadas,dominadas pelo paradigma neoliberal, tratou de tornar estas racionalidades fortemente visíveis.

Os três vetores deste processo - a privatização, a concentração e a mercantilização das esferas da vida social mais resistentes à reprodução das mercadorias - operaram claramente no sentido de divorciar a racionalidade instrumental dos mercados das razões da humanidade. Assim, capacidades estruturalmente e crescentemente excedentes de oferta de alimentos convivem com centenas de milhões de pessoas que são condenadas a viverem subnutridas ou agoniadas pela fome. Os mercados auto-referidos criam seus circuitos segmentados, suas prerrogativas, seus "direitos" desorganizando esferas produtivas de povos inteiros, tornando-os literalmente, para lembrar Caio Prado Júnior, massas de sujeitos "monetarizados mas sem dinheiro", cidadãos destituídos de direitos em ordens democráticas, identidades de rostos desfeitos.

A corrida produtivista agrária, como bem resume Carlos Tió, professor catedrático de Economia Agrária da Universidade

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