Rio de Janeiro, 28 de Agosto de 2026

Divórcio do real

Terça, 10 de Maio de 2011 às 09:25, por: CdB

Entre a morte da mãe Diana e o recente casamento do filho William com a “plebéia” Kate, o que aconteceu?

10/05/2011

Silvio Mieli

 

“Diana, a caçadora, acabou caçada", dizia uma manchete no dia seguinte da morte de Lady Di, a princesa da Inglaterra, em 1997. A trajetória de Diana foi um marco na forma como, no final do século 20, além do valor de uso e do valor de troca, passaríamos a contar com o “valor de exposição” da sociedade do espetáculo. A imagem de Diana foi consumida até a morte e, mesmo depois do acidente que a vitimou em Paris, a mídia continuou a lucrar com a sua desventura. Passados quinze anos, caberia ao seu filho, o príncipe herdeiro William, realimentar a saga.

Entre a morte da mãe Diana e o recente casamento do filho William com a “plebéia” Kate, o que aconteceu? Por um lado o valor de exposição configurou-se na era da promoção dos megaeventos, turbinados por uma nova figura social: os promoters (promotores), que transformam qualquer evento social em mercadoria espetacular fartamente patrocinada. De outro lado percebe-se um reconhecimento público e positivo desses eventos, identificados como operações de puro marketing. No casamento em questão, sobraram elogios midiáticos para a capacidade da Inglaterra em capitalizar com o evento, às portas de uma olimpíada e diante de uma crise econômica.

Em pleno século 21, ouvir falar em “súditos” e “plebeus” soa ridículo, mas não nos esqueçamos que são estes rituais monárquicos/religiosos que estabeleceram a liturgia dos dispositivos de poder que seguem até hoje intocáveis. E no caso da audiência brasileira, assim como não apagamos a nossa herança colonial de um dia para outro, não nos desfazemos assim rapidamente das relações reais e imaginárias com o Império Britânico. Mas a falta de mística e de conteúdo estético deste casamento, que foi considerado o evento de maior audiência de todos os tempos (2 bilhões de espectadores), pode definir o atual estágio cultural e espiritual da nossa civilização. Sob este aspecto, o megaevento está mais para o baile da Ilha Fiscal do que para o casamento do século. Ou dito de outra forma: o casamento é real, mas ele atesta o completo divórcio da própria realidade.

E isso seria só o começo da overdose de espetáculos na entrada no mês de maio. Depois do casamento real, viriam outros campeões de audiência: a beatificação de João Paulo II e, agora, como definiu Paul Craig Roberts, “a segunda morte de Bin Laden"...

Publicado originalmente na edição impressa 427 do Brasil de Fato

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