Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Ditadura nunca mais: Levante Popular pede punição aos torturadores

Por Marilza de Melo Foucher - Tanto a geração que viveu a ditadura e os que nasceram depois de 1964, têm o compromisso de contribuir com o fortalecimento da democracia e reafirmar no dia 1º de abril: Ditadura Nunca Mais!

Terça, 01 de Abril de 2014 às 08:16, por: CdB
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Militantes do Levante Popular abrem faixa em manifesto contra a tortura, prática comum nos anos de chumbo da ditadura Pedro Freitas é coordenador do Movimento Levante Popular
Por Marilza de Melo Foucher - Aproveitei minha estada no Brasil para realizar uma série de entrevistas e recolher alguns depoimentos com pessoas que foram presas, torturadas, perseguidas durante a ditadura, assim como aquelas que num trabalho de formiga levaram a frente o desafio de colaborar para a emergência da sociedade civil. No quadro dos 50 anos do golpe militar, publicamos entrevistas com pessoas que tiveram papel relevante no processo de democratização do Brasil, na luta pelos direitos fundamentais, e na inclusão dos excluídos ao processo de educação e da cidadania política. Muitos militantes utilizaram o instrumento de educação popular segundo Paulo Freire, e adotaram uma pratica educativa não autoritária, partindo da ótica que todo conhecimento é construído na relação das pessoas entre si e com o mundo, no sentido de apreender a realidade social de maneira critica e desvelando suas contradições. Preservar a memória histórica daqueles que fizeram resistência à ditadura e lutaram pela democracia e pelos direitos humanos no Brasil é de fundamental importância. Acredito que os jornalistas brasileiros devem assumir o papel de guardiões da democracia. Tanto a geração que viveu a ditadura e os que nasceram depois de 1964 têm o compromisso de contribuir com o fortalecimento da democracia e reafirmar no dia 1º de abril: Ditadura Nunca Mais! Temos o dever de lutar para que nunca mais o Brasil possa viver sob uma ditadura – militar ou de qualquer outro tipo. Ao longo desta semana, traremos ainda as entrevistas com o advogado dos presos políticos Luiz Eduardo Greenhalgh e com Paulo Vennucchi, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.  
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Leia, agora, a entrevista com o coordenador do Movimento Levante Popular Pedro Freitas. – A tua geração Pedro nunca estudou nas escolas, nos colégios a verdadeira historia da ditadura no Brasil. Explique o que levou o grupo de jovens a criar o esculacho, o escracho contra os torturadores? Por que vocês criaram o movimento Levante pela a Justiça e Pela verdade? – O Levante Popular da Juventude nasce no Rio Grande do Sul em 2006, mas tem como marco de sua nacionalização um Acampamento Nacional no início de 2012. Naquele momento, o Levante analisou que a luta por memória, verdade e justiça não estava sendo defendida como deveria pela esquerda brasileira. Os militares pressionavam o governo federal, a imprensa dava destaque a eles, e a indicação de nomes para a Comissão Nacional da Verdade se arrastava. Concluímos que eram necessárias ações para garantir a instalação da Comissão Nacional da Verdade. Foi quando se iniciou a campanha Levante pela memória, verdade e justiça. Inspirados pelos esculachos realizados em outros países da América Latina, com quem temos muito a aprender, conseguimos organizar um dia nacional de escrachos para desmascarar os torturadores e denunciar a impunidade dos crimes da ditadura. O método se mostrou adequado para dar visibilidade à luta. – A democracia brasileira é quase tão jovem que nem vocês... Por que não existe no Brasil uma grande comemoração pra festejar a democracia e dizer de uma vez por toda ditadura nunca mais? – O processo de transição da ditadura para a redemocratização no Brasil foi planejado pelos militares para ser lento, gradual e seguro. Sendo assim, não houve uma grande ruptura na sociedade para alcançar a democracia. Estas condições se refletem na quantidade de continuidades da ditadura existentes ainda hoje no país. Se os militares nos anos 1960 e 1970 nunca foram punidos por seus crimes de perseguição, tortura e assassinatos hoje, têm uma Polícia Militar que ainda age na lógica de combater um inimigo interno, uma PM que tortura e mata todos os dias a juventude pobre e negra nas periferias das grandes cidades. Além disso, o sistema político de hoje manteve a influência dos ruralistas, dos empresários, das poucas famílias que controlam os meios de comunicação de massa, e segue sem dar possibilidades de participação para o povo brasileiro. Estas questões nos fazem entender que a democracia que temos hoje é profundamente marcada pelo período da ditadura, de forma que a luta por memória, verdade e justiça está na ordem do dia, pois há muitas questões não superadas. A ausência de ruptura, o papel da grande mídia, as continuidades daquele período são elementos pra pensar o porquê de não haver uma grande comemoração massiva como essa. – O que vocês podem fazer pra conseguir uma maior adesão dos jovens brasileiros a este movimento? Vocês estão contribuindo na construção desta historia política que criou um vazio cultural durante décadas, exilando, artistas, escritores, cineastas, cantores, silenciados vozes de toda uma geração que apenas clamava por justiça social. – O Levante Popular da Juventude é um movimento social de juventude autônomo que tem origem no Rio Grande do Sul em 2005, na perspectiva de organizar a juventude do campo e a juventude das cidades, tanto do meio estudantil como das periferias urbanas, na luta por um Projeto Popular para o Brasil. É um movimento organizado que reúne, portanto, diversos segmentos de juventude em diferentes localidades, em torno de um projeto de sociedade, da luta por transformações estruturais no Brasil. O Levante se organiza em mais de vinte estados do Brasil hoje através de células de trabalho de base nas escolas, nos bairros, nas universidades, nos assentamentos. Com este trabalho, organizamos a juventude para fazer formação, agitação e propaganda e lutas em cada local, e é assim que temos conseguido mobilizar cada vez mais jovens. – Os meios de comunicação no Brasil se interessam por esta forma de protesto em defesa dos direitos humanos? – Os grandes meios de comunicação, controlados por poucas famílias no Brasil, apoiaram o regime militar e foram coniventes com os crimes da ditadura. Os que se opunham, foram censurados. A luta pela democratização dos meios de comunicação foi tocada pelo Levante em 2013, por entendermos que a grande mídia tem sido o principal meio de transmissão do pensamento conservador no país, com grande influência sobre a população. A tentativa de criminalização dos movimentos sociais é constante e a cobertura de ações em defesa dos direitos humanos é tímida. O editorial da Folha do dia 30/03/2014 ainda reforça a ideia de uma polarização e de confronto entre dois lados adversários nos anos 1960 e 1970, ignorando que houve uma política de terror de Estado para eliminação dos opositores do regime. A imprensa alternativa tem garantido boa cobertura para os protestos em defesa dos direitos humanos. – Que mensagem você teria a passar a esta juventude nesses 50 anos do golpe militar? – O golpe militar, articulado com setores civis em 1964, interrompeu um processo de reformas estruturais necessárias até hoje no Brasil, e iniciou um longo período de perseguição política e de repressão brutal, que muito afetou a juventude. Os jovens tiveram papel de destaque naquele período, tanto que uma das primeiras ações do regime militar foi queimar o prédio da União Nacional dos Estudantes no Rio de Janeiro, dada a ameaça que representava a organização dos jovens para o regime. A juventude se organizou para contestar, participou da luta armada, foi perseguida. Muitos foram torturados, mortos e deixaram seus familiares em sofrimento e em desejo de justiça até agora contra os criminosos militares impunes. A juventude de hoje deve muito àqueles jovens dos anos 1960 e 1970. E as continuidades daquele período, como o sistema político, parte da legislação, a polícia militar, afetam diretamente a vida da juventude brasileira atualmente. É fundamental entender que somente com juventude organizada para fazer pressão social é que poderemos conseguir o fim dos autos de resistência, a Constituinte para reformar o sistema político, a punição aos torturadores de ontem e de agora. Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil em Paris.
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