Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Ditadura e democracia para crianças

Por Ana Helena Tavares - Uma das críticas que mais recebo, ao longo dos anos em que resolvi mergulhar no período da ditadura militar brasileira, é o fato de que “olho muito para o retrovisor”. Quando o Brasil entenderá que, assim como o retrovisor de um veículo serve para evitar batidas, o conhecimento do passado serve para nos proteger da repetição dos erros?

Segunda, 29 de Setembro de 2014 às 14:30, por: CdB
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Olhar o passado pelo retrovisor ajuda a se evitar a repetição do mal
 Uma das críticas que mais recebo, ao longo dos anos em que resolvi mergulhar no período da ditadura militar brasileira, é o fato de que “olho muito para o retrovisor”. Quando o Brasil entenderá que, assim como o retrovisor de um veículo serve para evitar batidas, o conhecimento do passado serve para nos proteger da repetição dos erros? Na última terça-feira, 23 de setembro de 2014, voltei à praça localizada em frente ao atual 1º Batalhão de Polícia do Exército, antigo DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Eu havia ido cobrir a inauguração do busto do ex-deputado Rubens de Paiva, em 12 de setembro, e agora voltei para acompanhar uma matéria da Agência Petroleira de Notícias. A ideia da Agência, ligada ao Sindicato dos Petroleiros do RJ (SINDIPETRO-RJ), era filmar o Dr. Modesto da Silveira, o advogado que mais defendeu presos políticos e que foi ele próprio preso e torturado no DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita, conversando com transeuntes e explicando a importância daquele busto naquele local. Foi o que foi feito. O ponto alto foi a conversa dele com duas crianças, na faixa dos dez anos, que vestiam uniforme de escola pública municipal. Transcreverei a seguir: “O busto de Rubens Paiva está aqui simplesmente porque ele, sendo um homem correto e de bem, favoreceu uns brasileiros que estavam exilados no Chile trazendo uma carta deles. E aí ele foi pego. O Brasil naquela época vivia um sistema chamado ditadura. Vocês sabem o que é? Na escola vocês não aprendem isso? É um sistema de governo diferente do atual, quando podemos escolher os melhores candidatos para votar. Para presidente da República, governador, deputado, senador, para todo mundo que nos representa e nos governa. Só que na ditadura ninguém vota. O poder é pelas armas. ‘Ou você obedece ou vai ser torturado e morto’. Então, assim como o Rubens Paiva, qualquer pessoa que era contra a ditadura podia vir para cá”, explicou Modesto da Silveira às crianças. Aqui faço um parêntese para martelar algo importante: muitas pessoas que não tinham nada a ver com a luta política foram presas e torturadas. Foi o caso do meu tio. Era um jovem absolutamente alienado e com sérios problemas de saúde que os militares alegaram ser parecido com uma pessoa procurada. “Ah, o Dr. Modesto disse às crianças que, numa ditadura, o poder é pelas armas. Hoje, em alguns casos, ainda é”, poderá alguém dizer. Enquanto estávamos na praça com as crianças, éramos “vigiados” o tempo todo pela sentinela do 1º Batalhão. Dr. Modesto disse às crianças: “Hoje, vocês não precisam ter medo desse guarda armado. Podem olhar para ele. Ele vai abaixar a arma e virar o rosto. Eles sabem o que estamos fazendo aqui e, embora não admitam, muitos têm vergonha do que os militares fizeram no passado”, concluiu. É preciso, portanto, que se entenda, que os casos repressivos de hoje são resquícios de uma cultura repressiva do passado. Mas hoje os maus policiais (tanto militares quanto civis) não agem sob as ordens de um poder ditatorial, podendo ser punidos, o que jamais ocorre numa ditadura. Pensem que o que farão – ou, ao menos, terão o direito de fazer – no próximo domingo, 05 de outubro, foi negado aos brasileiros durante décadas. A democracia representativa, com todos os defeitos possíveis e imagináveis, ainda é o melhor dos mundos para um país com uma história democrática tão curta. Por tudo isso, é verdade: olho muito para o retrovisor. Olho pelas crianças. Para que vivam num Brasil cada vez mais livre, onde não sejam afastadas de seus pais, acusados de “subversão”, onde não sejam elas próprias torturadas, como houve casos na ditadura. E, enquanto o Brasil descartar o retrovisor como descarta a lataria velha de um carro, teimarei em lembrar que é mais fácil ser atacado pelas costas do que pela frente. Teimarei em lembrar que nenhuma nação do mundo avançou sem criar anticorpos que evitassem a volta a tempos sombrios. Teimarei em lembrar que todos os comentários que poderão ser feitos a este texto hoje, sejam favoráveis ou críticos, estariam sujeitos ao crivo da censura ontem. Teimarei em lembrar que nossas crianças e jovens jamais terão condições de transformar a realidade se não souberem que o hoje sempre colhe os frutos do ontem. Ana Helena Tavares, jornalista, conhecida por seu site de jornalismo político Quem tem medo da democracia?, com artigos publicados no Observatório da Imprensa e na extinta revista eletrônica Médio Paraíba. Foi assessora de imprensa e repórter dos Sindicatos dos Policiais Civis e dos Vigilantes. Universitária, entrevistou numerosas pessoas que resistiram à ditadura e seus relatos (alguns reproduzidos na Carta Capital e Brasil de Fato) serão publicados brevemente num livro. Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.
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