É bem verdade que a disputa entre os dois pré-candidatos democratas vem despertando paixões ocultas, propiciando comparecimentos recordes às urnas e gerando uma onda de engajamento político poucas vezes vista na história recente dos Estados Unidos.
Mas o fato é que a disputa prolongada já começa a saturar até os mais interessados pelo processo, a começar pelos jornalistas que vêm cobrindo as diferentes primárias.
Ouvir jornalista se queixar não é novidade, é rotina. Mas a disputa prolongada vem fazendo com que até os colegas que haviam se tornado verdadeiros viciados no processo das primárias gradualmente abandonem o vício, sem quaisquer sinais de crises de abstinência.
Quando eu disse que estava indo para a Filadélfia, os comentários de alguns conhecidos de profissão não foram coisas na linha de ''você precisa ir a Scranton, a cidade do pai de Hillary'' ou ''não deixe de visitar os bairros negros da cidade, onde há muitos eleitores de Obama''.
Não, nada disso, as afirmações mais constantes que ouvi foram: ''Oba, domingo estou de folga, vou poder visitar o centro da comunidade Amish''. Ou então: ''Que bom que você vem, o Foreign Press Center está organizando duas recepções, com drinques e comida, para a imprensa estrangeira''.
Não pense o leitor que o jornalista médio decidiu montar uma rede no quarto de hotel e saborear uma água de coco, enquanto cobre todos os eventos pela TV.
Não, seguimos indo aos QGs de Hillary e Obama, tirando fotos dos ativistas promovendo buzinaços pelas ruas da cidade, gravando passagens para a TV no comício da vitória de Hillary, etc, etc.
Mas o problema é que a sensação de mesmice que a campanha vem gerando é tremenda.
Parece já ter se falado de tudo. O voto hispânico, o voto feminino, o voto jovem, o voto afro-americano, a elegibilidade de Obama, se a questão racial influi ou não, se os eleitores confiam ou desconfiam de Hillary, se McCain se beneficia com a longa corrida democrata.
Agora, o risco que nos acomete quando passamos para as próximas primáras, as do dia 6 de maio, na Carolina de Note e Indiana, é a falta de assunto
A única garantia de que isso não irá ocorrer é se a competição entre os dois candidatos terminar de vez, graças ao resultado em um dos dois Estados.
Mas, sei não, tenho um mau pressentimento de que esse filme ainda não termina tão cedo.
Enquanto isso, o jeito é dar uma googlada nos sites turísticos para ver o que há de melhor nas praias da Carolina do Norte ou nos lagos de Indiana, na esperança de poder tirar alguns dias de folga entre uma primária e outra.
Quem sabe assim, surge inspiração necessária para escrever alguma coisa nova.