As negociações para criar um acordo comercial nas Américas tropeçaram nesta quinta-feira com obstáculos em alguns pontos importantes, como agricultura, serviços e investimentos. Os vice-ministros dos países envolvidos na negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) devem conseguir, na sexta-feira, um acordo preliminar sobre regras, obrigações e procedimentos comuns, para logo depois iniciar discussões mais difíceis.
Além disso, no encontro realizado em Puebla e previsto para durar de terça a sexta-feira, os representantes devem definir um calendário de negociações para cumprir a promessa de firmar o pacto em janeiro de 2005.
- No entanto, está muito cedo para dizer: 'Já fizemos isso, já acabamos'. Há alguns países para os quais a liberalização deve atingir todos os produtos. E há outros que dizem: 'Se vocês estão protegendo os serviços, se estão protegendo os investimentos, então quero proteger os bens'. É aí, basicamente, que residem as diferenças - disse Fernando de Mateo, um dos negociadores mexicanos.
Ainda que na terça-feira vários países tenham destacado os pontos em comum das principais propostas debatidas em Puebla - uma apresentada pelo Mercosul e outra por um grupo de 13 países encabeçado pelos EUA-, os negociadores ainda diziam haver diferenças em alguns assuntos fundamentais.
Dificuldades
Os trabalhos em torno da Alca avançam com dificuldade porque desde que começaram em abril de 1998, as negociações sofreram vários atrasos devido às diferenças em torno da amplitude do acordo e dos temas que incluirá.
Na última reunião de ministros da Alca, em novembro em Miami (EUA), os norte-americanos e os brasileiros convenceram os demais a aceitar sua proposta de criar um acordo menos profundo, o que desagradou países como o Canadá, o Chile e o México, defensores de um pacto de maior alcance.
Segundo um delegado que participa dos trabalhos em Puebla, o Mercosul não se mostra disposto a reduzir suas demandas sobre o acesso a mercados e na agricultura e, de outro lado, não quer fazer concessões nos setores de investimento e de serviços.
- O grupo de 13 países diminuiu suas ambições em relação ao acesso a mercados, na área da agricultura e como um todo. De outro lado, a proposta do Mercosul está desequilibrada. O bloco diminuiu suas demandas em todas as áreas, mas não no acesso a mercados e na área agrícola - afirmou um delegado, que não quis ter sua identidade revelada.
O Mercosul defende a eliminação das tarifas para todos os produtos vendidos pelo bloco e o fim de todos os subsídios à exportação de produtos agrícolas, incluídos créditos subsidiados e seguros a exportações.
O Brasil e a Argentina, grandes produtores agrícolas, não querem assumir compromissos amplos em áreas como a propriedade industrial e as compras feitas por seus governos. Os EUA já disseram que não discutirão na Alca os milionários subsídios pagos ao setor agrícola e nem sua política de defesa comercial.
O Brasil e os EUA dividem a presidência da Alca, que, se aprovada, formaria a maior zona de livre comércio do mundo, com uma população total de 800 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) de 12 bilhões de dólares. Todos os países das Américas participariam dela, com a exceção de Cuba.
Sem carne
Organizações civis, que enviaram delegados à reunião, queixaram-se na quarta-feira de que as negociações em Puebla estão deixando de lado as diferenças entre as economias dos países para elaborar um acordo até o final de semana.
- Eles estão caminhando rumo a um acordo, mas é um acordo sem carne, um esqueleto sem nada dentro - disse Katia Maia, da Oxfam International, uma organização não-governamental de apoio ao desenvolvimento.
A Alca inclui países com economias bastante díspares, como o Haiti, o país mais pobre do continente, e os EUA, uma superpotência mundial.
- As propostas discutidas não apresentam soluçõ