Depois de ver dezenas de países abandonarem, nesta segunda-feira, uma conferência racial da Organização das Nações Unidas, num gesto raro, após seu discurso, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, sofreu críticas dentro de seu próprio país. Ele apontou Israel como um "regime racista cruel e repressor". O correspondente da insuspeita TV árabe Al Jazeera em Teerã, Alireza Ronaghi, disse em reportagem que foi ao ar logo após o pronunciamento:
– As palavras de Ahmadinejad foram criticadas no Irã não apenas entre os jovens, mas nas mais diferentes facções políticas. Suas posições já vinham sendo criticadas há algum tempo, inclusive entre os conservadores, que classificaram tal atitude como totalmente fora de hora e de contexto – disse Ronaghi.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, deplorou a declaração, e dezenas de delegados abandonaram seus assentos, comprometendo ainda mais um evento já boicotado por algumas potências ocidentais, inclusive os Estados Unidos.
– Foi uma experiência muito perturbadora para mim como secretário-geral. Nunca vi nem experimentei esse tipo de procedimento perturbador da assembleia, da conferência, por parte de nenhum Estado membro. Foi uma situação totalmente inaceitável – disse ele numa entrevista coletiva ao final do dia.
Os EUA anunciaram no sábado sua desistência da conferência, por temerem que ela fosse dominada por críticas injustas a Israel. Austrália, Nova Zelândia, Itália, Alemanha, Polônia e Holanda fizeram o mesmo. O discurso de Ahmadinejad, único chefe de Estado presente, confirmou o tom que aqueles países temiam.
– Depois da Segunda Guerra Mundial, (os judeus) recorreram a agressões para deixar sem lar uma nação inteira, sob o pretexto do sofrimento judeu. E eles mandaram migrantes da Europa, dos Estados Unidos e de outras partes do mundo a fim de estabelecer um governo totalmente racista na Palestina ocupada. E, na verdade, em compensação pelas terríveis consequências do racismo na Europa, eles ajudaram a levar ao poder o regime racista mais cruel e opressor na Palestina – disse Ahmadinejad à conferência, no dia em que comunidades judaicas rememoram o Holocausto.
Discurso "vil e odioso"
Washington qualificou o discurso de "vil e odioso", e o Vaticano o considerou "extremista e inaceitável". A alta comissária da ONU para direitos humanos, Navi Pllay, se disse "chocada e muito entristecida por tudo o que ele disse".
– Não acho, porém, que este comportamento sirva de justificativa para que qualquer outro Estado membro abandone esta conferência – completou.
A maioria dos delegados voltou à conferência ao final do discurso de Ahmadinejad, embora o representante tcheco tenha anunciado seu abandono definitivo.
– Tais comentários antissemitas ultrajantes não deveriam ter lugar em um fórum antirracismo da ONU – disse o embaixador britânico, Peter Gooderham.
O ministro norueguês Jonas Gahr Store disse ao plenário depois do discurso que o Irã havia se isolado e que a Noruega não permitiria que Ahmadinejad "sequestre os esforços coletivos de muitos". No entanto, várias das delegações que permaneceram no plenário aplaudiram o discurso de Ahmadinejad.
Horas antes, Israel retirou seu embaixador na Suíça em protesto contra a conferência e pelo fato de o presidente suíço, Hans-Rudolf Merz, ter recebido Ahmadinejad no domingo. Tentativas árabes e muçulmanas de escolher Israel como alvo de críticas fizeram os EUA deixarem o primeiro encontro da ONU sobre o racismo, na África do Sul, em 2001. Embora a declaração formal preparada para a conferência não se refira explicitamente a Israel ou ao Oriente Médio, seu primeiro parágrafo "reafirma" um texto adotado no encontro de 2001, que inclui seus seis parágrafos sobre esse polêmico assunto.