Rio de Janeiro, 08 de Outubro de 2026

Diretor do Festival de Locarno fala sobre a edição 2011

Terça, 02 de Agosto de 2011 às 07:43, por: CdB

Desde que assumiu o cargo de diretor artístico do Festival Internacional de Cinema de Locarno, o francês Olivier Père transformou radicalmente sua programação, o que permitiu ao evento encontrar sua própria respiração, mais ampla e profunda.

Na abertura da edição de 2011, ele já pode apresentar um considerável balanço. swissinfo.ch entrevistou-o.

A seleção da 64° edição do Festival Internacional de Cinema de Locarno foi considerada um sucesso pelos críticos. É uma surpresa sem triunfalismo, pois o verdadeiro trunfo está no conteúdo e nos fatos: um retorno dos sucessos de bilheteria dos EUA, mas não somente isso. As estrelas do cinema de ontem e de hoje estarão presentes também.
 
O diretor artístico Olivier Père, francês de nacionalidade, propõe uma concepção coerente e viva do cinema, trazendo o festival às suas origens históricas. O encontro será mundial para o cinema de autor, independente, emergente, mas sem esquecer de falar da história do cinema.

swissinfo.ch: Como foi o trabalho de realizar a seleção do atual festival? 

Olivier Père: No início partimos com ideias, desejos e ambições que, obviamente, trazem surpresas inevitáveis, golpes de sorte ou imprevistos. Ao começar demasiadamente rápido o trabalho de seleção, é possível vir a descobrir que um determinado filme em vias de realização ou de produção não estará pronto a tempo e, dessa forma, não poderá ser convidado. Ao antecipar e manter um contato estreito com os produtores e diretores, conseguimos planificar um programa de filmes que serão posteriormente levados às salas de exibição.
 
Além disso, ainda há o componente trazido pelas descobertas, frutos de viagens em quase todas as partes do mundo e aos diferentes festivais. Cada ano traz um lote de revelações fortes e interessantes, das quais algumas teremos o prazer de mostrar em Locarno.

swissinfo.ch: Nesse ano o senhor conseguiu trazer estrelas americanas e sucessos de bilheteria à Locarno. Como foi possível reconquistar a confiança dos americanos? 

O.P.: Eu viajei e encontrei chefes de grandes estúdios de produção, de marketing e da publicidade, de Los Angeles à Londres. Também procurei uma colaboração estreita com os distribuidores de filmes americanos na Suíça.
 
Eu comecei esse trabalho desde que assumi o cargo, o que foi reforçado, sem dúvida, pelo eco mediático internacional bastante positivo da última edição do festival. Nossos interlocutores também estavam com vontade de colaborar e nos trazer não apenas filmes, mas também atores e diretores como será o caso para "Cowboys & Aliens", do diretor Jon Favreau, com os atores Harrison Ford, Daniel Craig e Olivia Wilde.

swissinfo.ch: Mas nem todos os filmes americanos são sucessos de bilheteria. O que o senhor pensa do cinema independente? 

O.P.: Que ele está vivo. Você tem razão de ressaltar que a presença dos Estados Unidos está particularmente forte nesse ano, o que se explica pela sua riqueza e diversidade. De fato, o cinema americano não significa somente filmes populares. No programa do concurso internacional e dos cineastas do presente temos novos e jovens autores independentes, que me surpreenderam. Locarno também homenageará duas grandes figuras do cinema independente americano: o produtor Mike Medavoy e o diretor Abel Ferrara.

swissinfo.ch: Duas palavras sobre o concurso internacional, bastante "francês" esse ano... 

O.P.: Nós trabalhamos bastante para montar um concurso internacional sólido, que dá espaço às descobertas, aos jovens cineastas e aos primeiros filmes, mas que também integre valores seguros do cinema independente e de autor como Shinji Aoyama, Mon Hans-Løve ou Nicolas Klotz. Essa combinação entre novas descobertas e cinema contemporâneo me agrada bastante pela verdadeira riqueza que ela representa.
 
Há quatro filmes franceses, de fato, o que é bastante excepcional. Mas a produção nesse ano foi muito boa e estimulante, com muitos cineastas de talento. Eu gostaria de ter convidado todos (risos), mas foi necessário fazer escolhas dolorosas para garantir um certo equilíbrio.

swissinfo.ch: Um festival é composto também de premiações ou homenagens. E elas são numerosas nesse ano com Claude Goretta, Claudia Cardinale, Bruno Ganz e Isabelle Huppert. É um leque bem generoso... 

O.P.: Concordo quando se fala que decidimos dedicar uma parte importante às homenagens. Como decidimos também nos concentrar nos filmes, reduzimos o seu número para lhes dar mais visibilidade. E foi assim que liberamos um espaço precioso para aqueles que fazem o cinema.
 
Você tem razão ao falar de generosidade. Estou muito feliz pelo fato da Isabelle Huppert ter aceitado vir. Estou também honrado pela presença de Abel Ferrara. E Claudia Cardinale, quem nunca sonhou com ela? Queríamos compartilhar a magia do cinema com o nosso público.

swissinfo.ch: E como está a situação do cinema suíço? 

O.P.: O cinema suíço está fortemente representado em Locarno, pois a  produção suíça do ano deve poder estar presente o melhor possível em todas suas seções.
 
A nova geração, como Melgard e Baier, promete bastante. Também há obras inesperadas e excêntricas como "Hell", um longa-metragem fantástico e bem-sucedido no seu gênero e que iremos ver na praça principal. O cinema suíço é mais variado, rico e diverso do que podemos pensar. Mas creio que seu grande valor continua sendo o documentário, bastante presente em Locarno.

swissinfo.ch: Da Suíça à Índia, sem transição, mas com uma ligação em todo caso, pois a seção "Open Doors" é apoiada pelo governo suíço. Mas por que a Índia? O que acontece fora do circuito Bollywood? 

O.P.: Bollywood é demasiadamente poderoso, rico e forte para ter necessidade da Open Doors (risos). Mas Locarno abrirá suas portas ao cinema indiano independente e de autor, que sofre atualmente, sobretudo devido à supremacia da produção de Bollywood.
 
O objetivo da Open Doors é menos de exibir filmes do que apoiar a realização de projetos cinematográficos. Dessa vez selecionamos doze. Essa operação tem um objetivo bastante concreto e pode dar resultados prometedores. De fato, os projetos realizados retornam frequentemente à Locarno um ou dois anos mais tarde em outras seções. Essa continuidade entre projetos, autores, produtores e o festival é bem fértil.

Françoise Gehring, swissinfo.ch
Adaptação: Alexander Thoele

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