Para o diretor dinamarquês Lars von Trier, o ultraje suscitado por Anticristo no Festival de Cannes, em maio, foi música para seus ouvidos.
Estrelado por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe como casal que luta para superar a perda de seu filho pequeno, o terror psicológico suscitou gritos, gemidos, escárnio e alguns poucos aplausos quando foi exibido no festival.
As cenas explícitas de sexo, violência e automutilação sexual, sem falar em uma raposa que fala, fizeram de Anticristo um dos filmes mais comentados dos últimos anos em Cannes.
Numa coletiva de imprensa, pediu-se a Von Trier que justificasse seu filme, e as primeiras críticas consideraram o filme misógino, bombástico e propositalmente provocante.
Mas, de modo típico para um diretor que vem polarizando opiniões ao longo de toda sua carreira, nem todos o odiaram. O jornal The Telegraph deu escore máximo à história soturna sobre morte e ódio a si mesmo.
- Me sinto muito bem em relação a isso-, disse Von Trier, quando indagado sobre as reações negativas.
O filme chegará aos cinemas britânicos em 24 de julho. Será exibido sem cortes, com classificação de proibido para menores de 18 anos.
- Acho muito bom que as pessoas saiam do cinema com algum tipo de emoção -, disse o cineasta.
Frequentemente descrito como o enfant terrible do cinema contemporâneo, Von Trier vem evitando ler as resenhas de Anticristo, embora tenha sugerido que não é indiferente às opiniões das pessoas.
- Acho que o filme é como uma criança - precisa viver sua vida própria -, disse ele.
Resta ver se a controvérsia suscitada por Anticristo vai favorecer suas perspectivas de bilheteria.
Lars von Trier é conhecido sobretudo por Ondas do Destino e o premiado em Cannes Dançando no Escuro, enquanto Dogville e Manderlay, filmados em sets sem elementos, também causaram polêmica.
Mas ele descreveu Anticristo como o filme mais importante de sua carreira, possivelmente porque foi sua maneira de enfrentar uma depressão prolongada.
O diretor repetiu a declaração que fez em Cannes: que não pensa no público quando faz seus filmes.
- Trabalho para mim mesmo como público, e, se gosto do trabalho, espero que sirva de alguma maneira para outras pessoas -, disse Von Trier, que já se descreveu como o melhor diretor de cinema do mundo.
Ele disse que não sabe qual será seu próximo filme, acrescentando: - Estou esperando para ouvir uma palavra de Deus, na realidade.-
Apesar de ter se convertido ao catolicismo nos anos 1990, supostamente depois de sua mãe, em seu leito de morte, lhe dizer que a pessoa que ele pensava ser seu pai não o era, o cineasta disse que não tem fé.
- Eu diria que sou mau cristão, não sou crente. Foi essa a ideia à qual cheguei muito cedo na vida: de que a vida na terra, a natureza e o homem não podiam ser criações de um Deus misericordio.