Rio de Janeiro, 13 de Outubro de 2026

Direita, volver!

Terça, 16 de Agosto de 2011 às 10:00, por: CdB

No final dos anos 1970 e início dos anos 1980,quando eu estava em Roma, cursando o Bacharelado em Teologia, ouvi algumasvozes que denunciavam a teologia da libertação, afirmando que ela provocaria umcisma na Igreja. Voltei para o Brasil, os anos passaram, a teologia dalibertação foi sufocada, seus teólogos e seguidores sofreram calados e o máximoque aconteceu foi que alguns deles se afastaram da Igreja Católica por nãosuportarem mais tanta perseguição e tanta injustiça. O cisma aconteceu, sim,porém seu protagonista não foi a esquerda, mas a ultraconservadora direitacatólica. No dia 30 de junho de 1988 o bispo Marcel Lefebvre o consumou,ordenando bispos quatro padres de sua Fraternidade São Pio V. Foi coadjuvadopor Dom Antonio de Castro Mayer, bispo emérito de Campos, um dos mais acirradosrepresentantes da direita católica no Brasil. Na época tais ordenações foramconsideradas pelo Vaticano como um ato cismático e, por isso, Lefebvre, CastroMayer e os ordenados ficaram ipso facto excomungados.

Hoje, para tristeza de muitos, estes bispos"cismáticos” foram admitidos na Igreja Católica, sem demonstração de verdadeiroarrependimento e de autêntica reconciliação. O ato formal de aceitação doConcílio Vaticano II ficou nas aparências, pois, na prática, a teoria é outra.Basta acompanhar alguns atos, alguns pronunciamentos e os sites desse grupopara se perceber com nitidez a rejeição do último concílio. Um dos bispos"cismáticos” vive no Brasil e, depois da admissão na Igreja Católica, passou afreqüentar as reuniões da CNBB. Várias vezes, o vi nas concelebraçõeseucarísticas como mero expectador. Ele não concelebrava, mas rezava sua missaem particular e em latim. Afinal de contas, para ele e para seu grupo, Deus nãoentende outras línguas. Só aprendeu o latim! Portanto, concelebrar, e em línguaportuguesa, é falar uma língua que Deus não entende!

Diferentemente do que se dizia em Roma, a Igreja daLibertação não provocou nenhum cisma. Seus profetas e profetisas foramapedrejados, caluniados e silenciados. Não provocaram nenhum cisma porque erampessoas que realmente amavam e ainda amam a Igreja. Tudo faziam por ela. E nomomento em que foram perseguidos, seguiram as pegadas do grande Servo de Javé,apresentando as costas aos que queriam bater e não escondendo o rosto aosinsultos e escarros (Is 50,6).

Os verdadeiros cismáticos foram e continuam sendoos da direita católica. Eles não só formalizaram um ato de ruptura com aIgreja, mas continuam fazendo isso na prática. Além do mais, com o modelo deIgreja que defendem, estão efetivando um verdadeiro cisma silencioso,como mostram os estudos de Piero Cappelli e outros. Milhares de católicosdeixam a Igreja decepcionados e tristes, pois têm clara consciência de que oconservadorismo não condiz com o projeto de Jesus e com o Evangelho.

A incursão da direita católica é muito antiga. Foiela, e não os mulçumanos, que criou o terrorismo no mundo. Prova disso é oextermínio praticado na Idade Média pelas Cruzadas e pela Inquisição, e, maisrecentemente, a matança dos povos do continente americano e do continenteafricano. A ferocidade da espada tinha sempre a proteção e a bênção do báculo.

Hoje assistimos a atos religiosos que sãoverdadeiros terrorismos, embora sutis e disfarçados. É claro que não se matamais, porém isso não significa que exista menos terror. Pense-se, por exemplo,no terrorismo das pregações de certos padres e de parte da mídia católica,carregando os fiéis de pecados, proibições e punições. Até mesmo atos insanos,como aquele de poucos dias atrás na Noruega, não deixa de ter o dedo docatolicismo ultraconservador, que, por meio de suas lideranças, alimentasentimentos absurdos, como o preconceito contra o islã. Frei Betto, em recente artigo, notou que oterrorista norueguês tinha "olhos azuis”. Fez-nos perceber que por detrás deste ato brutal está a tradição da direitabranca, cristã e cristã católica.

É claro que a direita católica não age motivadapela fé em Jesus Cristo. Ela não acredita em nada, a não ser no poder e nodinheiro. Sua intenção é utilizar-se da religião para manter o status quo e continuar dominando omundo. Não por acaso ela defende regimes autoritários e é totalmente contráriaa verdadeiras mudanças, como a reforma agrária. É notória a ligação de preladose de membros conservadores da alta cúpula da hierarquia com ditadores eopressores do povo. Ficou conhecida mundialmente a grande amizade existenteentre um núncio apostólico no Chile e Pinochet, talvez o mais sanguinário detodos os ditadores da América Latina. Tal amizade fez com que Pinochet e suamulher recebessem uma bênção especial do papa por ocasião das bodas de ouro decasamento.

Não há como negar a incursão da direita católicaultraconservadora no mundo. Por enquanto ela ainda se manifesta com muitaforça. Mas, como todo regime autoritário, seus dias estão contados. É claro quenós, nascidos no século passado, não veremos o seu fim. Ela ainda possui umpouco de fôlego. Mas as gerações vindouras respirarão aliviadas, pois, comodizia Voltaire em seu Dicionário Filosófico, a religiãomelhor é aquela simples, com pouquíssimos dogmas, que ajuda as pessoas a seremmais justas, que não obriga a crer em absurdos e em coisas contraditórias eimpossíveis; que ensina apenas a adoração a Deus, bem como a justiça, atolerância e a humanidade. E a religião da direita católica não é nada disso.Por essa razão, creio eu, morrerá por inanição.

Paulo Freire, em 1968, na sua Pedagogiado Oprimido, já nos dizia que quando o poder se enrijece e seburocratiza, perde a dimensão de humanização. E se perde a humanização passa aviver apenas de proibições. E se vive de proibir, se torna violento, e ao praticara violência fere em profundidade a condição ontológica do ser humano, a suavocação de ser mais.

Com isso o poder torna-se terrorista e instrumentode desumanização e, como tal, tende a ser visto cada vez mais pelas pessoascomo uma verdadeira farsa. Seu destino é a morte, pois quando a vocação do serhumano é negada pela violência e pela opressão, a humanidade se sente roubadaem sua dignidade e tende a reagir. Quando não podem falar, as pessoas agem comindiferença. Vivem como se os dogmas religiosos não existissem. O poderreligioso continua emitindo e decretando suas proibições, mas a população fazde conta que ele não existe. Este gesto de indiferença une cada vez mais aspessoas insatisfeitas. Por isso todos os impérios caíram, mesmo os mais violentose mais religiosos. A religiosidade não é garantia de perpetuidade. "Aqui nãoficará pedra sobre pedra; tudo será destruído” (Mt 24,2).

[Autor de O ancião e sua senhora eleita. Reflexõesteológicas, eclesiais e pastorais sobre a condição de bispo emérito,recentemente publicado pela Editora Paulinas. Em parceria com Carlos Bruno deAraújo Mendonça publicaram pelas Edições Loyola o livro Antropologia daformação inicial do presbítero].

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