Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Diplô, 50 anos

Por Emir Sader, - A melhor publicação de política internacional completa meio século. Pena que o Brasil, ao contrário de países como a Argentina, o Chile e o México, não possua ainda uma edição mensal de Le Monde Diplomatique. (Leia Mais)

Sexta, 07 de Maio de 2004 às 08:07, por: CdB

A melhor publicação de política internacional completa meio século. Em maio de 1954 saia o primeiro número de Le Monde Diplomatique, com um subtítulo que indicava pretensões bem menores do papel central desempenhado pelo jornal nos dias atuais: "Jornal dos círculos diplomáticos e das grandes organizações internacionais". A nota da redação para os leitores reiterava que objetivo principal da publicação era o de "dotar os membros dos serviços diplomáticos e consulares de todos os países e o pessoal das principais organizações internacionais, bem como suas famílias, de um órgão consagrado aos acontecimentos e aos problemas que lhes interessam particularmente."

O primeiro número correspondia a esse objetivo. O artigo central era uma crítica à "diplomacia secreta", mas ao mesmo tempo faz a análise de que negociações públicas não teriam viabilidade. Há um texto que retrata o clima da Conferência de Genebra. E outra que traz informes sobre encontros internacionais, resenha de revistas e calendário de eventos, até hoje cobertos pela publicação.

Um caderno especial que acompanha a edição de maio de 2004 de Le Monde Diplomatique traz suas primeiras páginas antigas escolhidas nas últimas cinco décadas, e permite acompanhar a trajetória do mundo nesse período crucial para a história da humanidade, assim como as transformações do Diplô, como é conhecido mais familiarmente. Uma manchete de maio de 1955 retrata a Conferência de Bandung, considerada o lugar de nascimento do Movimento dos Países Não-Alinhados, com a participação, entre outros, de Nasser, de Pahm-Van Dong, de Nehru, de Sukharno e de Chu Em-Lai.

Cinco anos depois, o jornal consagra a posse do presidente John Kennedy como um momento novo no cenário internacional. Sete anos mais tarde, aborda a independência conquistada pelos argelinos contra o colonialismo francês. Passam mais três anos, e são as barricadas de 1968 que colocam a pergunta: "reforma ou revolução?" Em 1979, a preocupação é com o projeto de unificação européia, e em 1984 com o endividamento do terceiro mundo. Em 1988, Bernard Cassen já aponta para a preocupação com "a selva do grande mercado".

Em 1991, já encontramos os editoriais de Ignácio Ramonet no lugar daqueles de Claude Julian. Ramonet enunciava a necessidade de "ganhar a paz" no Iraque, até que em janeiro de 1995 ele publica seu editorial histórico: "O pensamento único", que tornou-se um marco no convocação do movimento por uma outra globalização, alternativa àquela de caráter neoliberal. Em dezembro de 1997, o jornalista francês aponta para a necessidade de "desarmar os mercados", e em janeiro de 2001 seu editorial evoca um nome que se tornará um símbolo dessa luta: Porto Alegre.

No editorial de maio de 2004, Ramonet lança um novo grito em um texto curto, que ele chama de Resistências:

"Resistir é dizer não. Não ao desprezo, não à arrogância. Não ao avassalamento econômico. Não aos novos donos do mundo. Não aos poderes financeiros. Não ao G-8. Não ao "Consenso de Washington". Não ao mercado totalitário. Não ao livre-comércio integral. Não à dominação do "pôquer do Mal" (Banco Mundial, FMI, OCDE, OMC). Não ao hiperprodutivismo. Não aos organismos geneticamente modificados. Não às privatizações permanentes. Não à irresistível extensão do setor privado. Não à exclusão. Não ao sexismo. Não à regressão social. Não à destruição da Seguridade Social. Não à pobreza. Não às desigualdades. Não ao esquecimento do Sul. Não à morte, diária, de 30 mil crianças pobres. Não à destruição do meio ambiente. Não à hegemonia militar de uma única superpotência. Não à guerra preventiva. Não às guerras de invasão. Não ao terrorismo. Não aos atentados contras a populações civis. Não aos racismos. Não ao anti-semitismo. Não à islamofobia. Não à histeria de segurança. Não ao policiamento do pensamento. Não ao rebaixamento cultural. Não às novas censuras. Não às mídias que mentem. Não às mídias que manipulam.

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