“De vez em quando, convém lembrar que repórter não é Polícia e a Imprensa não é Justiça, e também não deveria se considerar inimputável como as crianças e os índios. Vejam o que aconteceu com Murdoch, o ex-todo-poderoso imperador. Numa democracia, ninguém pode tudo”. A conclusão é do jornalista Ricardo Kotscho, em um texto reproduzido no portal Brasil 247.
Para esse eterno repórter, o episódio da capa da revista Veja contra mim neste final de semana (leia mais neste blog) suscita a necessidade de a sociedade brasileira debater o papel da nossa imprensa . “Uma imprensa que não admite qualquer limite ou regra, e se coloca acima das demais instituições para investigar, denunciar, acusar e julgar quem bem lhe convier”, ressalta Kotscho.
Segundo o jornalista, Veja ao fez uma grave acusação contra mim - de que eu manteria um "gabinete" num hotel de Brasília, onde eu despacharia “com graúdos da República” e que “conspiraria contra o governo da presidente Dilma" - tudo o que a revista conseguiu produzir foi “um editorial da primeira à última linha, com mais adjetivos do que substantivos.” Isso, ao longo de oito páginas.
Tese prévia à apuração
Na visão de Kotscho, a tese da minha suposta conspiração contra o Governo Dilma estaria pronta antes da sua apuração. Para outro experiente jornalista, Alberto Dines, acostumado a comentar os acertos e erros da imprensa brasileira, Veja, ao trazer “de volta os vídeos clandestinos, os arapongas, os dossiês secretos jogados no colo de jornalistas ditos investigativos”, levou o jornalismo político de volta à era da lascada.
Em um texto no Observatório da Imprensa, ontem, Dines descreve a matéria de capa da revista desta semana como “sutil como uma carga de cavalaria – e tão eficaz quanto esta”. Para ele, a reportagem produziu um curto-circuito, reintroduzindo a imprudência no diálogo governo-imprensa.
Customizado da primeira à última linha
“O texto inteiro de Veja, da primeira à última linha, é customizado, adaptado para servir à tese de que o ex-chefe da Casa Civil está conspirando contra a sua sucessora, atual presidente da República. Não há evidências, apenas insinuações, ambigüidades, gatilhos”, comenta o colunista e editor responsável do Observatório da Imprensa.
O texto segue: “A lista dos “conspiradores” é frágil e as possíveis motivações, inconsistentes. O conjunto é disparatado, não faz sentido, carece de lógica. Mesmo enquanto ficção. Um desserviço”.
Faço as conclusões de Dines as minhas palavras: “este é um jornalismo que não se sustenta, é retrocesso. Não favorece a imagem da imprensa e degrada o processo político”.
Dines e Kotscho criticam jornalismo de Veja
Quarta, 31 de Agosto de 2011 às 04:09, por: CdB