Rio de Janeiro, 01 de Setembro de 2026

Dilma, os militares e o elo de titânio na cadeia de comando

Por Gilberto de Souza - O elo forjado em titânio entre o alto oficialato das Forças Armadas e a garantia do Estado democrático, atualmente, significa a diferença entre uma aventura golpista por parte da ultradireita e a manutenção do governo legalmente constituído.

Domingo, 23 de Agosto de 2015 às 14:40, por: CdB
Por Gilberto de Souza - do Rio de Janeiro O elo forjado em titânio entre o alto oficialato das Forças Armadas e a garantia do Estado democrático, atualmente, significa a diferença entre uma aventura golpista por parte da ultradireita e a manutenção do governo legalmente constituído, mais de centro do que de esquerda, da presidenta Dilma Rousseff. Ainda assim, é a velha exploração do trabalhador que assegura a firme ligação entre comandantes militares, os principais líderes do empresariado e as forças políticas que obedecem à linha de Washington. Esse conjunto de interesses conserva intacto, por enquanto, o selo de uma intervenção armada no possível conflito civil que resultaria do golpe de Estado articulado no Congresso, com apoio nem tão velado assim de parcelas substantivas do Judiciário.
adolph-menzel.jpg
Fragmento da obra de Adolph Friedrich Erdmann von Menzel - Das Eisenwalzwerk
No arcabouço da crise política instalada após as eleições, ano passado, pela birra da parcela mais conservadora da população – iludida pela mídia cartelizada e submissa àqueles mesmos tenentes do capitalismo que se relacionam tão bem com generais e similares – ao não aceitar o resultado das urnas, reside a imposição de uma reforma fiscal que restaure o lucro dos investidores e garanta a continuidade dos contratos leoninos, ora em vigor. Havia uma pequena chance, até o início deste ano, de o Brasil, com apoio dos BRICS, incentivar a criação de uma nova estrutura financeira mundial. A aproximação de Dilma aos interesses de Wall Street, declarada na recente visita da presidenta ao colega yankee, no entanto, ajudou a esfriar o movimento do grupo afligido por instabilidades nas fronteiras da Rússia e ajustes sensíveis na economia chinesa. Parece crível que a retomada nas relações com os EUA seja um passo estratégico da presidenta Dilma para o contorno das dificuldades em lidar com a direita nacional. O afago do Planalto à Casa Branca significou um argumento a menos na lista de motivos que levaram o Tea Party tupiniquim a pedir o fim do governo petista, sob a alegação de que o comunismo o havia tomado de assalto. Trata-se de uma decisão que custará aos trabalhadores mais suor e lágrimas, mas serve para reduzir bastante a pressão interna, exercida por hordas de entreguistas e pusilânimes em geral. Desde Março deste ano, quando descontentes de indistintos matizes ganharam as ruas, meio sem rumo, vestidos de verdeamarelo, a política do Planalto foi na direção de acalmar os ânimos da matriz, em Nova York, e da filial, na Avenida Paulista. Aparentemente, conseguiu. Os donos dos principais bancos do país, que sustentam abertamente a oposição, foram os últimos a declarar apoio ao sistema democrático, em sinal claro de uma trégua, ainda que frágil, na luta contra o avanço das forças populares. E a esquerda brasileira, que agora parece ter percebido o risco de um grave retrocesso histórico, voltou a ganhar as ruas, a exemplo das manifestações do último dia 20.   Com a desarticulação dos principais movimentos de extrema direita, começa a minguar o esforço além da conta daqueles que pregam o impedimento da presidenta. No domingo passado, o que se viu foi o espetáculo medonho de uma elite branca, rica e fascista, espumando de ódio contra a maioria absoluta dos trabalhadores, estudantes e militantes dos movimentos sociais brasileiros. Mesmo as TVs, revistas e jornais que servem para embrulhar 'coxinhas', embora ainda contem com um fôlego extra no beneplácito da publicidade estatal, afundam nas ondas cada vez maiores do tsunami em que se transformou a internet, com desemprego em massa nas redações. De volta aos quartéis, o elo entre o aço dos fuzis e a singeleza do voto é elaborado em metal leve, durável, resistente à corrosão. Difícil quebrá-lo. Traduz-se no compromisso da nata em manter o comando da tropa, configurada segundo os mandamentos militares que asseguram ao empresariado a perenidade do sistema capitalista, a sacrossanta propriedade privada, a solidez dos lucros e a manutenção da paz entre os explorados. Ocorre, porém, que uma pequena impureza na forja, mínima que seja, será suficiente para enfraquecer a ligação entre a caserna e os donos da riqueza. Basta a faísca da cidadania para minar essa corrente de comando; um micrograma que seja do carbono encontrado nas faixas e bandeiras erguidas por um país liberto do domínio imperialista, com terra para quem nela trabalha e liberdade ao desenvolvimento de uma pátria justa e soberana. Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.
Tags:
Edições digital e impressa